11 de julho de 2026
Cultura

Artigo: Pia Fraus reconstrói o velho pelos sentidos em ‘100 Shakespeare’

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 1 min

Respondendo à música, o jogo de luz acompanha o movimento dos atores-bonecos no palco. Ou a iluminação dita o ritmo da trilha e da performance. Na verdade, é impossível saber quem desencadeia o quê no espetáculo “100 Shakespeare”, da Cia. Teatral Pia Fraus, onde música, luz e performance são sincronamente expressivas.

Neste teatro de marionetes, os bonecos são o público, tão hipnotizado pelo show que, na apresentação de anteontem no Teatro Municipal em Bauru, abstraiu do calor de 15 dias sem ar-condicionado (o aparelho segue em manutenção).

Original, o dramaturgo Beto Andretta resgata cenas de nove peças clássicas de Shakespeare e, com ousadia, elimina a fala sem tirar a força do texto, substituída no espetáculo pelos diálogo mudos e expressão facial/corporal dos 43 bonecos manipulados por quatro atores. Vinte e cinco deles foram criados por Beto Lima, um dos fundadores da companhia, morto em 2005.

Do humor ao drama, os 60 minutos de espetáculo são muito bem costurados por histórias independentes que manipulam a platéia, presa nas técnicas de teatro negro (bonecos fosforescentes sob luz negra ), Bunraku e manipulação direta usadas com propriedade pelos atores.

Com a pretensão despretensiosa de mostrar sem mostrar Shakespeare, evidenciada já no duplo sentido da sonoridade do título do espetáculo, “100 Shakespeare” pode ser assistido por conhecedores ou leigos da obra do dramaturgo inglês. Com bonecos, figurinos e cenário rústicos e modernos, a peça alcança o sensorial, dirigindo-se aos sentimentos, aos sentidos, ao sentir...só.