11 de julho de 2026
Política

Política vira ‘panelinha’ para poucos

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 3 min

A saída do empresário Caio Coube da presidência do PSDB e sua declaração, dizendo que se desencantou com a política, conforme publicou o JC nesta semana, mostram um fenômeno que vem crescendo a cada ano, sobretudo em anos eleitorais: a debandada da sociedade civil organizada e dos cidadãos comuns, que perceberam não terem lugar na política, infestada por ‘políticos profissionais’.

O filósofo grego Aristóteles dizia que política é tudo o que se relaciona a busca de ações para o bem estar tanto individual, como coletivo. O que tem se notado na política brasileira, no entanto, é a falta de noção do coletivo e o anseio cada vez maior pelo individual.

Além de deixar de lado o bem-estar coletivo, os políticos têm conseguido afastar os cidadãos da vida pública, transformando a classe política em uma “panelinha” onde poucos conseguem penetrar. Para o cientista político Celso Zonta, esse fenômeno se deve ao fato de uma cultura enraizada na política brasileira. “Há muita mesquinharia e interesses pessoais que acabam impedindo a renovação”, destaca.

Segundo ele, o ritual político se divide em formal e informal. O primeiro é o processo eleitoral, com suas regras estabelecidas por lei. O informal se refere à busca pelo poder. E a busca do poder faz com que se perca o horizonte público, que fica relegado a segundo plano. “A legislação eleitoral facilita a privatização dos partidos políticos no ritual da participação e faz com que muitas vezes o jogo do poder rasteiro seja mais privilegiado do que os objetivos públicos e impedem a renovação com outras pessoas que teriam o objetivo mais público e menos de poder”, explica.

Para Zonta, os políticos usam os partidos inadequadamente, de maneira a viabilizar manipulações políticas e fazer com que os candidatos se eternizem no poder. “Todo indivíduo que já é eleito não deveria ter garantida sua indicação partidária. Todos devem concorrer e a sociedade deveria fiscalizar mais os partidos políticos para que as pessoas não possam ser donas do espaço político”, frisa.

Cultura política

O cientista político aponta que, no caso de Bauru, repete-se um fenômeno nacional, mas que existe também em outros países. Segundo ele, Bauru tem alimentado a cultura de que política é assim mesmo e não há espaço para mudanças. Para ele, as pessoas já absorveram a tese de que quem está na oposição tem que bater.

“É mesquinharia, porque ele vai expressar suas ações políticas a partir de seus interesses. Quanto mais bater, mais visibilidade vai ter para garantir sua reeleição. O que nós temos em Bauru é um pouco do que temos no estado e no País. E o que nós temos no País é um pouco também do que nós temos em outros países. É um círculo vicioso”, ressalta.

Zonta destaca que a situação econômica e política da cidade contribui para o cenário. De acordo com ele, essa situação chegou a um grau de deterioração que as forças vivas e lideranças da cidade têm a necessidade urgente de se aglutinar em torno do bem-administrar Bauru, tornando insuportável essa cultura política tradicional, ou seja, ao invés de se afastar, as pessoas precisam se aproximar da política para tentar mudar o que está estabelecido.

“Não é possível que nós tenhamos pessoas que entram na vida política e só pensem em sua dimensão de poder, assim como não é possível que homens do mundo dos negócios entrem para a política e a administrem apenas do ponto de vista organizacional, porque não pode ser assim. Tem que dialogar muito com a sociedade para que não fique submetido ou à lógica partidária ou à lógica de quem está na espera do poder, usando a mesquinharia para alcançá-lo”, frisa.