08 de julho de 2026
Articulistas

Bush, Doha e uma luz


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A vinda do presidente George W. Bush ao Brasil teve duas motivações evidentes. A primeira, de caráter político; e a segunda, de cunho econômico, com maior foco no etanol. Obviamente, ambas se completam e têm interfaces com o cenário contemporâneo da América do Sul e com as relações externas dos EUA, abaladas por questões como a não-adesão ao Protocolo de Kioto e a guerra do Iraque. No tocante à política, a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sob a égide da legalidade e da Constituição e num pleito legítimo, é o grande contraponto continental à tentativa de perpetuação no poder, por meio de manobras casuísticas, de Hugo Chávez, na Venezuela, onde as instituições sucumbiram ao processo de aparelhamento do Estado por ele promovido. No Brasil, a despeito dos problemas relativos à corrupção no setor público e aos vícios da política, as instituições têm consistência, mostram-se inabaláveis e não há risco, inclusive nas intenções e atitudes dos governantes, de exceção no processo democrático.

Ou seja, considerando sua grandeza, o porte de sua economia e seus 190 milhões de habitantes, o Brasil, dentre os emergentes, é um exemplo para o continente e o mundo. Um modelo de democracia capaz de frustrar a tentativa de Chávez de construir liderança duradoura na América do Sul, baseada numa retórica populista, estatizante, de irresponsabilidade fiscal e destoante dos rumos da civilização. Bush vem ao Brasil para dizer ao mundo que reconhece a consolidação de nossa democracia. Passando à vertente econômica, há um aspecto muito congruente com a temática política: a Venezuela tem petróleo; o Brasil tem etanol; e os norte-americanos, acuados ante as pressões internas e externas contra a política ambiental de seu governo, querem investir cada vez mais em combustíveis mais limpos, renováveis e - por que não? - mais baratos. O sinônimo mais exato para esses três atributos é “etanol”. E o Brasil, segundo maior produtor mundial, apenas há pouco tempo ultrapassado pelos Estados Unidos, é o responsável, junto com Tio Sam, por 70% do mercado mundial. Nessa questão há um detalhe fundamental, certamente um dos principais motivadores da nova tática de sedução do Brasil pelo governo norte-americano: dentre todas as nações com agricultura estruturada, incluindo os próprios Estados Unidos, a nossa é a que tem a maior disponibilidade de terras ainda a serem cultivadas: 100 milhões de hectares. Além disto, os investimentos, já em curso, expandirão a capacidade produtiva brasileira dos atuais 18 bilhões de litros por ano para 25 bilhões, já em 2010. O Brasil, sem comprometer seus vínculos sul-americanos, deve, sim, aproveitar a presença de George W. Bush para desencadear nova etapa em sua política comercial. Mais do que nunca, é fundamental que o País possa, sem radicalismos, buscar soluções para os empecilhos protecionistas do chamado primeiro mundo, como os famigerados subsídios agrícolas e a própria sobretaxa de US$ 0,54 por galão (R$ 0,30 por litro) que nosso álcool paga para entrar no mercado norte-americano.

Neste momento em que surgiu uma luz no fim do túnel da Rodada Doha e que o cenário político internacional favorece o diálogo com Bush, que precisa conquistar simpatias, há boa oportunidade de o Brasil avançar na conquista de diferenciais competitivos. Devemos aproveitá-la com sabedoria, produzindo e fornecendo etanol para o mundo. Contudo, devemos fazer isto com equilíbrio e bom senso, preservando a diversidade do agronegócio e a força da indústria.

O autor, Paulo Skaf, é o presidente da Fiesp