08 de julho de 2026
Articulistas

Hipocrisia e preconceito


| Tempo de leitura: 3 min

Atualmente o único jornal que leio diariamente é o JC, por razões muito práticas: toda a grande imprensa, com exceção de revistas como Caros Amigos e Carta Capital, parece o samba de uma nota só, ou o samba do crioulo doido. Como o nosso JC reproduz, embora resumidamente, as notícias nacionais e internacionais das agências Folha e Estado, produz o noticiário local e regional, conto ainda com a Internet e os telejornais, considerando-me informada de modo suficiente para entender o momento que estamos vivendo. Mas o que falta ao JC, ou sobra muitas vezes, são as matérias opinativas: não há editoriais, apenas as pílulas da coluna Entrelinhas, razão pela qual a página 2, que é de opiniões em todos os grandes jornais, fica por conta de artigos, comprados ou não, de diferentes profissionais da cidade ou de fora. Muitas vezes os leitores nem sabem quem são os que se põem a escrever, já que os créditos do autor são, por descuido ou propositalmente, ambíguos e genéricos.

O “samba de uma só” é uma metáfora para o mesmo conteúdo nas mãos de diferentes autores, variando apenas, e muito pouco, o plano da expressão. Até parece que muitos dos que escrevem se formaram na mesma escola, tendo recebido instruções claras sobre como organizar as críticas aos governos, federal e municipal, já que o governo estadual, estranhamente, é poupado nas críticas dos tais articulistas. A primeira regra do treinamento salta à vista: “mostre-se um erudito”, citando autores famosos, da era antiga aos tempos modernos. E lá vêm Aristóteles, Platão, Sócrates, Nietzsche, Descartes e, principalmente, Rui Barbosa, entre os nossos. Schopenhauer, Sartre, Foucault e Proust, jamais. Aí é que entra a hipocrisia e o preconceito, pois os autores são escolhidos a dedo e também a esmo, sem conhecimento do que eles representam para os valores sociais.

Nietzsche, por exemplo, era assíduo leitor da Bíblia desde a infância e, segundo a Enciclopédia Barsa (1968), foi o primeiro filósofo da História a ressaltar a hipocrisia do “bom, verdadeiro e belo” como valores supremos da civilização. “Não existe no homem, diz ele, nenhum instinto de bondade, de verdade ou de beleza. O que existe de fundamental, no ser humano, é a vontade de mando e de poder.” Convém ler o resto na Barsa. E Rui Barbosa, um dos mais citados, é apontado como exemplo de honestidade e retidão de caráter. Nada mais falso! Com certeza não leram Mad Maria, o romance de Márcio Souza, nem assistiram à minissérie da Globo que, embora amenizando a desonestidade e falta de caráter do “ilustre jurista”, não pôde deixar de mostrá-lo como assecla dos gabinetes da República Velha, defendendo os interesses do capital internacional.

Ainda quero falar da incoerência do nosso jornal que, ao mostrar nas manchetes e nas notícias como o país vai bem, ao mesmo tempo dá espaço para aqueles que insistem em dizer que o país está um caos. Para ter o melhor exemplo dessa incoerência, basta observar a faixa vermelha exibida no alto da 1.ª página com chamada para as ofertas de emprego na cidade. No último domingo, 4/3, estava lá: Nesta edição, 3.036 classificados com mais de 6 mil ofertas. Para a boa notícia do crescimento na produção de biocombustível, a manchete da capa era: Etanol cria ‘xeiques’ e transforma Interior em novo Oriente Médio, distorcendo e mascarando a grande conquista do governo federal.

Por último, devo dizer que, até poucos anos atrás, eu não tinha nenhuma esperança de ver a nossa polícia ativa, desbaratando as redes do tráfico de drogas. Todos os dias o JC traz uma ou mais notícias de traficantes presos. Manchete de 2ª feira, 05/03: Tráfico lidera prisões em Bauru. Estamos realmente vendo muitas mudanças em direção a um Brasil melhor, só não muda o preconceito da “elite branca perversa”, termo que uso em homenagem a Cláudio Lembo, um velho cacique da ditadura que, em poucos meses no governo de São Paulo, nos brindou com essa pérola do raciocínio lúcido.

A autora, Mariza Bianconcini Teixeira Mendes, é doutora em Estudos Literários pela Unesp