08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Surpreso e agradecido


| Tempo de leitura: 2 min

Encontro nas ruas de Piratininga um senhor ainda jovem que me chama de professor. Já faz tanto tempo que deixei de lecionar...

Eduardo Rodrigues foi meu aluno no velho e sempre renovado Liceu Noroeste há 30 anos. Ter me reconhecido agradou por mostrar que os estragos do tempo não foram tantos, mas lembrar ele das minhas aulas fez-me próximo da emoção. Tenho tido a felicidade de momentos como esse. Sem buscar, acabei indo para o magistério em vários momentos e, sem muito merecimento, pude receber o galardão de ser considerado realmente professor. Coisas da bondade do destino...

Uma vez, o professor Moreira Pinto me levou ao Sesc para dar aulas de merceologia, matéria que nem existe mais, ao que eu saiba. Em 1961, a tradicional (ela era mesmo uma tradição) e minha antiga professora de desenho Prosperina Queiroz licenciou-se. Era o meio do ano e não se encontrou substituto. O amigo professor Fúlvio Delicato sugeriu meu nome. Minhas qualificações para lecionar a matéria: eu era formado em direito pela USP, tinha feito meus estudos no colégio estadual e obtido boas notas em desenho. Com isso, formou-se um curriculum emergencial e lá fui eu enganar, o que fiz com tanta sorte que os alunos aprenderam! Entre os enganados, um colosso de hoje pessoas que vivem em Bauru, incluindo-se Tuga Angerami. Durou pouco a experiência.

Depois, desempregado, perto dos 40, com um escritório moribundo, rezei e meus santos se aliaram à amigona Isolina Bresolin Vianna, e ela sugeriu o meu nome ao Paulo da Silva Telles, e iniciei um novo capítulo na arte de ser professor. Lecionei conhecimentos gerais por dez anos, principalmente no Preve com alguns anos de OSPB no Liceu. E não é que os anjos protetores me ajudaram a fazer de conta que sabia o que ensinava. No cursinho vestibular, quando se fazia o Ibope, meu nome sempre ocupava um bom lugar. A vitória da sorte!

Mas sorte mesmo, que me traz prazer e honra, tem sido encontrar pessoas dignas, capazes, cidadãos e cidadãs que me reforçam a esperança quanto ao futuro da Pátria, pessoas como o Eduardo Rodrigues.

Pelo resumo de minha vida como professor pode se ver que encontrei muita gente. Ocorre, em momentos como este, em que estou traçando estas linhas, comover-me intensamente ao lembrar-me que quanta moça e quanto rapaz de caráter forte e inteligência superior eu conheci. De todos alunos que tive, recordo que a maioria próxima da totalidade foi constituída por seres humanos que, numa terra onde todos fossem como eles, formar-se-ia Pátria perfeita.

Termino, agradecendo a bondade do sempre jovem Eduardo Rodrigues, como tenho feito a outros que, num excesso de bondade e fidalguia nas palavras, fazem-me sentir que a vida teve razões de ser. Um abração a você, Eduardo, e aos que quiserem se recordar do antigo colega que na sala de aula era tratado por professor.

Marco Aurélio Pinheiro Brisola