08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Mundo virtual


| Tempo de leitura: 3 min

Tenho um filho adolescente. É um rapaz alegre e inteligente e seu comportamento não difere da grande maioria dos garotos de sua idade. Mas ao contrário do que eu e meus amigos fazíamos quando tínhamos 15 anos, raramente pratica esportes. Está sempre em casa e adora jogar “on line” no microcomputador.

Quando adolescente, eu passava muito tempo fora de casa. Esportes, em clubes e na rua. Em casa pouco tinha o que fazer.

Lembro do meu pai como uma pessoa austera. Impunha a obediência e o respeito porque era “o pai”, a pessoa que tomava a maioria das decisões que afetavam a minha vida e dos meus irmãos. Para desespero, às vezes, da minha mãe. Mas lembro também que eu confiava nele. Mesmo não gostando das restrições, no meu íntimo acreditava que ele estava querendo fazer o melhor.

Gostava de conversar com meu pai. Essas conversas me influenciaram bastante. Aprendi coisas que vou levar sempre comigo.

Meu filho e amigos não saem de casa com a mesma freqüência com que eu saía. Os riscos são maiores, é verdade. Mas parece que há um motivo maior para isso. Em nosso mundo globalizado, com a Internet e jogos “on line”, eles não precisam andar muito para encontrar diversão e interagir com outras pessoas.

Às vezes tenho a impressão que meu filho, embora ficando mais tempo em casa, está mais longe do que eu jamais estive do meu pai.

Quando eu era menino e meu pai viajava, era uma euforia quando a telefonista nos chamava pela manhã apenas para avisar que receberíamos uma ligação “interurbana” 12 horas depois. Assim eram as telecomunicações nos anos 60.

Houve uma mudança radical em apenas uma geração. Quando estou viajando e sinto saudades do meu filho, costumo telefonar. É comum ele me atender friamente e responder, com não mais que três palavras, que está ocupado, jogando “on line” com um estranho que manipula um “mouse” no outro lado do mundo.

Interessante. Hoje é muito fácil falar com quem está longe. Mas tão fácil que a comunicação perdeu o sentido. Falar com quem conhecemos e compartilhamos nossas vidas virou algo meio sem graça.

Não é saudosismo. Reconheço a evolução que experimentamos. Uso computador no meu dia-a-dia. Mas creio que o “micro” e os jogos “on line” estão criando abismos. Pessoas que vivem próximas parecem estar perdendo o poder de comunicar-se no mundo real com a mesma intensidade que o fazem no “mundo virtual”.

Para os que duvidam, basta mencionar que o “Second Life” é a última grande sensação da Internet. Se gasta cada vez mais tempo vivendo uma vida que não pode ser vivida, apenas “navegada”...

Não quero negar que “navegar é preciso”, como dizia o Fernando no “Mensagem”. Mas o computador, mais do que uma máquina criadora de LER, escoliose múltipla e colapsos mentais, se transformou em uma segunda geladeira em nossas casas. Uma máquina gela alimentos e outra gela corações.

Algum autor de ficção científica já pensou que o “mundo virtual” é a necessária resposta do homem à superpopulação e à falta de espaço. Viajaremos cada vez mais em nossos mundos virtuais simplesmente por falta de meios para fazê-lo no mundo real.

Entristece, porém, antever as mudanças que isso pode acarretar nas relações humanas. Como poderiam as efêmeras e insípidas “viagens virtuais” provocar as mesmas marcas indeléveis que os contatos reais deixam na memória?!

Talvez um dia, após gerações seguidas de “contatos virtuais”, as pessoas já não mais perceberão o que perderam por lhes faltar a lembrança dos contatos reais. Talvez nesse dia viverão todos lado a lado apenas para satisfazer as necessidades básicas, procurando a felicidade em um “Matrix” povoado por bilhões de indivíduos que jamais cogitarão de se ver frente a frente, muito menos se tocar...

Bem, é possível que essa seja uma visão muito pessimista do futuro. Mas tem uma explicação no presente: há dois dias, viajando e me sentindo só, liguei para o meu filho...

Luiz Otavio de Oliveira Rocha