09 de julho de 2026
Articulistas

Violência e políticas públicas


| Tempo de leitura: 3 min

Afirma Rousseau em sua obra Emílio: “É preciso estudar a sociedade pelos homens, e os homens pela sociedade: os que quiserem tratar separadamente da política e da moral nunca entenderão nada de nenhuma das duas”. Para um tempo em que a sociedade é refém do medo da violência e da falta de medidas que sejam eficazes em suas soluções, fica evidente que tal situação é fruto da miopia política que não consegue visualizar os diferentes vetores da sociedade que levam a tal situação. Existe a tendência em separar a política da vida e quando isto acontece perde-se a sensibilidade de ver o homem naquilo que é, produz e necessita. O homem forma o meio onde vive e reciprocamente o meio forma este mesmo homem naquilo que se torna.

O caso do Rio de Janeiro é uma pequena amostra de uma sociedade sitiada pelo descontrole e ineficácia do poder público, que tenta barrar o colapso social por medidas pontuais, sem dar-se conta que as zonas de intensidades que provocam tal situação são múltiplas e não se esgotam meramente por um reforço policial ou agravamento de penas. Qualquer análise deve passar necessariamente pelo seguinte questionamento: quais meios são oferecidos pelas políticas públicas para o pleno desenvolvimento e formação do cidadão?

Tal questionamento está ancorado na evidência de que a atual situação de violência é resultado da inexistência histórica de investimentos políticos, econômicos e sociais que visem o cidadão e suas necessidades. Investimentos lineares e progressivos que produzam um tecido social sólido, assistindo o cidadão em seus direitos. Quando não se investe no homem colhem-se nas gerações futuras indivíduos hostilizados em seus afetos e domesticados em seus desejos. Colhemos hoje safras de homens e mulheres mutilados em sua humanidade.

As disputas e instabilidades políticas fazem parte do cenário histórico brasileiro. Períodos longos divididos entre autoritarismos senhoriais e coronelistas, ditaduras populistas e vergonhosos anos de chumbo do regime militar. A democracia é uma realidade que, ainda, não penetrou na alma da brasilidade, justamente por que nunca fomos educados à participação, o resquício da submissão está impregnada em nosso éthos, daí entender a não emancipação do brasileiro.

Outra constatação é a realidade de não continuidade das políticas públicas entre os governos a cada legislatura. A máquina administrativa está ligada muito mais a interesses partidários e ideológicos do que propriamente com a coisa pública. Resultado: a cada governo sempre se começa de novo, não se aperfeiçoa programas de governos anteriores simplesmente por divergências político-partidárias. Entraves que travam o desenvolvimento do país.

Qual perfil social pode produzir uma sociedade com histórico de opressão, com uma redemocratização lenta e falha nas suas raízes e políticas públicas parciais com vistas de interesses partidários? Essa sociedade da barbárie que temos hoje. Os meios oferecidos para o desenvolvimento do cidadão são obsoletos e desumanizantes. Um misto de ignorância, mediocridade e falta de bom senso, para ver que a solução está em atender a coletividade e não pontos isolados.

Para Rousseau, o homem nasce naturalmente bom e a sociedade o corrompe. Um ser que nasce livre de preconceitos e vícios, mas quando submetido ao meio onde vive é contaminado pelos pré-conceitos que deformam e contaminam o seu caráter.

Não queiram justificar as mazelas sociais, na índole do homem, pois esse é fruto do meio onde nasce, cresce e se desenvolve. Todos somos responsáveis pelos bons meios, pois é interesse de todos o bem e a justiça.

O autor, Fausi dos Santos, é filósofo e professor de Teoria do Conhecimento na Universidade do Sagrado Coração - USC - e-mail: fsantos@usc.br