10 de julho de 2026
Nacional

Após 14 anos, Collor diz que impeachment foi ‘grande farsa’

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Brasília - Quatorze anos depois de passar pelo processo de impeachment no Congresso Nacional, o ex-presidente Fernando Collor de Mello (PTB-AL) fez ontem seu primeiro discurso como senador e disse querer “passar a limpo” o episódio que resultou na perda de seus direitos políticos. O plenário do Senado, com 63 dos 81 parlamentares presentes, parou para ouvir as palavras do ex-presidente.

“Os episódios que aqui vou rememorar obrigaram-me a padecer calado e causaram mossas na minha alma e cicatrizes no meu coração. Fui acusado sem provas, insultado e humilhado durante meses a fio. Tive minha condenação antes mesmo de qualquer julgamento. (...) Hoje, passados 17 anos de minha posse na Presidência da República, volto à atividade política integrando esta augusta Casa, a mesma que a interrompeu por decisão dos ilustres membros que a compunham”, afirmou.

Em um discurso de 99 páginas, intitulado de “O resgate da história” - com 19 capítulos -, Collor esclareceu detalhes do processo de impeachment, em 1992, que teve início com a instalação de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que comprovou a existência de um esquema de corrupção coordenado pelo empresário Paulo César Farias - ex-tesoureiro da campanha de Collor. Collor alegou que a CPI recomendou a sua perda de mandato presidencial sem nenhuma evidência de que estivesse envolvido em ações de corrupção. “Se não fui notificado, indiciado, como acusar quem não foi objeto de investigação? (...) A mim, nem o benefício da dúvida foi concedido”, disse.

O senador usou palavras como “arbítrio”, “prepotência”, “grande farsa” e “falsidade” para se referir ao episódio do impeachment. Collor alegou inocência e se disse injustiçado com a perda do mandato. “Declaro a minha absoluta inocência ante as imputações que, ao longo de todo o processo, me foram feitas, sem consistência, sem comprovação e sem nenhum fundamento. Fui afastado na suposição - e tão somente na suposição - de que as acusações que me fizeram fossem verdadeiras”, afirmou.

Lágrimas

O discurso de Collor estava marcado para às 15h, mas começou com quase duas horas de atraso até que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), chegasse ao plenário. Renan integrou a chamada “tropa de choque” de apoio a Collor na época do impeachment. Collor chegou ao plenário acompanhado da mulher, Caroline, e em diversos momentos embargou a voz ao discursar.

O senador chegou às lágrimas depois que o senador Romeu Tuma (PFL-SP), que foi diretor da Polícia Federal em seu governo, rasgou elogios ao ex-presidente. Diversos senadores interromperam o discurso de Collor para fazer comentários sobre o impeachment. O senador Aloizio Mercadante (PT-SP), que na época foi um dos críticos de seu governo, manteve sua posição. “Eu fiz o que a minha consciência achava que devia ser feito. O considero um senador como todos os demais e será tratado com a mesma consideração que todos os demais”, disse Mercadante.

____________________

Choro de Roberto Jefferson

Brasília - O presidente do PTB, deputado cassado Roberto Jefferson (RJ), acompanhou ontem do plenário do Senado o longo discurso do ex-presidente Fernando Collor de Mello sobre o processo de impeachment. Jefferson liderou a chamada “tropa de choque” do ex-presidente e foi um dos poucos parlamentares a declarar publicamente o seu voto contrário à cassação de Collor. Emocionado, Jefferson chegou às lágrimas em partes do discurso.

Na opinião do ex-deputado, Collor conseguiu resgatar o episódio do impeachment sem mágoas ou acusações. “Não há ressentimento no tom nem nas suas palavras. Ele quer enterrar um capítulo triste de sua vida e crescer com serenidade”, afirmou. Jefferson perdeu o mandato em setembro de 2005, depois de denunciar a existência do esquema do mensalão.

O ex-deputado disse não ter ressentimentos dos que foram responsáveis pela sua cassação. “Passado é passado, você não pode viver com olhos nas costas. A lição que eu recolho (de Collor) é construir sem ressentimentos”, disse.