08 de julho de 2026
Articulistas

Sopa de cebola


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O escritor argentino Jorge Luiz Borges nos contou, em “Ficções”, a história de “Funes, el Memorioso”, um homem que se lembrava de tudo, de cada folha que ele vira sobre cada árvore, de cada palavra que ele ouvira ao longo de sua vida e que, por causa de sua memória total, era um perfeito idiota. Muitas vezes eu me sinto como “el Memorioso” por ficar aqui lembrando de coisas boas ou tristes; dos sacrifícios de alguns em benefício de muitos e, o que é pior, “me quedo acá” como o personagem, a cobrar que se lembrem e que reconheçam méritos. Para mim, o esquecimento só tem uma face boa: nos dar a chance de lembrar.

Ensina Umberto Eco que a memória é instrumento da cultura e o objetivo da erudição. Admite também que existe um filtro, ou melhor, uma rede de relações, que pesca aquilo que precisa. Nós sabemos quem era Hitler, exemplificou o semiólogo, mas não qual era a cor de suas meias no dia em que ele se suicidou em seu bunker. As meias de Hitler, para alguns, pode ter concretude, textura, cor. Elas completam uma cena dramática. Outro pode tomá-las como exemplo, ao construir uma análise sócio-econômica sobre a moda masculina da Alemanha naquele tempo. As meias de Hitler não tem conteúdo histórico – pode alguém reclamar, categórico.

Na Europa existem plaquinhas para lembrar às gerações presentes, acontecimentos, pessoas, coisas, animais e mitos. Em Paris, perto do que foi o Les Halles, outrora mercado central, na Rua Ferronnerie, em frente ao nº 11, há uma placa dizendo que Henrique IV foi assassinado a punhaladas naquele local, dentro do seu coche, por um tal Ravaillac. É uma forma de marcar um fato histórico. É evidente que ser culto exigiria do candidato a esse título saber também qual o papel que o rei da França desempenhou no contexto europeu da época. Quem desce na estação Odéon do metrô, onde existe uma estátua de Danton apontando para o infinito, nota numa parede a placa de mármore: “Aqui tombou Jean Moulin, assassinado pelas balas assassinas da Gestapo”. Sei que ele foi o grande mártir da Resistência contra os invasores nazistas. É verdade que não temos, em Bauru, uma história tão rica. Mas, custaria muito pouco colocar na fachada da Câmara Municipal uma humilde lembrança: “Aqui em frente, o Prof. Duka derramou o seu sangue, lutando pelos interesses do povo”. Se houvesse a plaquinha me lembraria do ano, mês e dia...

Há casos em que o homem culto quer se tornar intelectual: os resultados nem sempre são convincentes. Deve ser o meu problema. Para o intelectual a cultura é apenas um meio, não um universo, que não lhe passa pela cabeça habitar, porque ele não saberia como. Cultura pressupõe o ócio; intelectualidade pressupõe trabalho.

Voltando a Les Halles, os parisienses até hoje lamentam a demolição do mercadão que deu lugar a um centro comercial e de lazer modernoso. Mas, os botecos daquele tempo continuam. Um deles é o “Le pied de cochon” (O Pé de Porco). Lá nasceu a sopa de cebola, um dos ícones da cozinha francesa. No século 17 era feita com as cebolas que sobravam no fim-de-feira. Os trabalhadores, às 5 da manhã, procuravam se restaurar com essa refeição e o pão dormido, por alguns centavos. O restaurante também aproveitava os pés de porcos, descartados pelos compradores de suínos. Depois de temperados e fritos viraram uma iguaria que até a burguesia passou a pedir. Meu amigo Marco Brisola me levou lá uma vez, na hora em que os gatos começam a subir dos porões. Com o seu francês do tempo em que se aprendia no “Ernesto Monte”, ouvia Monsieur Lefèvre contar histórias da sopa, emendadas com as dos seus sofrimentos na Indochina, onde o seu batalhão de legionários foi cercado pelas tropas de Ho-Chi Min. Bombas caindo dia e noite sobre as cabeças dos soldados. Horror, mortes, destruição, sofrimento. A França teve que abdicar e abandonar a antiga colônia. Do alto da sua Legião de Honra Monsieur Lefèvre é o guardião da sopa de cebola. Dá as receitas originais e repete aos turistas, histórias desse grande orgulho francês. Brisolinha era o único que tinha liberdade de entrar na cozinha e ir direto ao caldeirão para encher novamente a cumbuca. O maior orgulho do chef era ouvir o iauuuu de um faminto brasileiro, no rabo da madruga, sorvendo com avidez o inesquecível consommé. Monsieur Lefèvre só faltava gritar - Vive la France!

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC