11 de julho de 2026
Geral

‘O policial militar enfrenta uma guerra todos os dias’, diz major

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

O policial militar tem de estar preparado para uma “guerra” diária. Ele nunca sabe o que vai acontecer quando sai de casa. O inesperado é o que mais afeta o profissional da área de segurança. Por isso, se não estiver bem com o físico e mentalmente, pode colocar a própria vida e a de terceiros em perigo.

“Tem de ter qualidade de vida. Se o policial pratica atividades físicas e está com sua vida familiar bem resolvida, são grandes as chances de sair numa boa do confronto”, diz o major Nelson Garcia Filho.

Mesmo correndo tudo bem, um confronto armado pode deixar seqüelas. Por esse motivo, todas as vezes que um policial se envolve em um tiroteio, é afastado pela corporação para acompanhamento psicológico. O tratamento dura em média duas semanas e é feito em Marília ou Assis.

Em 23 anos de profissão, um capitão da Polícia Militar, que pediu para não ser identificado, participou de vários tiroteios e muitos deles resultaram em mortes. Segundo o capitão, a finalidade da polícia é sempre procurar preservar a vida, mas em determinadas situações isso não é possível.

Responsável pela morte de oito pessoas, aproximadamente, o capitão conta que nunca se sentiu afetado psicologicamente por isso. Ele diz que ao deixar a academia, os policiais já saem preparados para enfrentar situações desse tipo. “Quando chegamos a esse ponto (tiroteio) é porque esgotamos todas as formas possíveis de negociação. Quando acontece, ponho a cabeça no travesseiro e durmo tranqüilo”, relata o policial, que passou por acompanhamento psicológico todas as vezes que se envolveu em confronto armado.

Da mesma forma, um sargento, que também pediu anonimato, conta que trabalhou durante 20 anos na Força Tática e nesse tempo participou de diversos tiroteios. Foram cerca de dez mortes provocadas por ele, mas todas as vezes o sargento fala que procurou esquecer o ocorrido.

“Às vezes a gente fala que não sente (por ter matado alguém), mas sente sim. Porque nossa função é preservar a vida e não tirá-la”, admite o sargento. Além disso, lembra ele, “não é todo dia que acontece”. “Às vezes, passam anos sem participar de nenhum tiroteio.”

Em um dos que participou, o sargento lembra quando levou dois tiros no peito. O colete a prova de balas o salvou. “A gente fica com medo de novos confrontos porque temos família, filhos”. Ele conta que o pior momento que já viveu foi ter de dar a notícia da morte de um colega para a família dele. “É a pior coisa do mundo”, afirma. “O psicológico tem de estar bem preparado, porque senão você não agüenta.”

De acordo com a psicóloga Suzana Duque Dabus, quando o trauma é grande, as pessoas podem desenvolver uma série de transtornos como medo de sair de casa, depressão, dificuldade de dormir, irritabilidade e tendência ao isolamento.

Segundo ela, com terapia e medicamentos é possível à pessoa que passou por um trauma voltar a ter uma vida normal. No entanto, o tratamento é dificultado quando as seqüelas são físicas.

Neste caso, o acompanhamento psicológico tem de ser diferenciado porque requer uma mudança de vida quase total. “Há casos de pessoas que ficaram paraplégicas, traçaram novos objetivos na vida e deram a volta por cima”, relata.