Batia o ano de 1982. Euforia de milhões de brasileiros. Afinal, ano de mais uma Copa do Mundo de Futebol. E mais: seleção dirigida pelo melhor técnico de todos os tempos, Telê Santana. E, de quebra, uma seleção tida como superior a de 1970, tri-campeã no México.
Mas... o Brasil é cheio de contradições. Insurgem-se os atletas por conta do prêmio em caso de vitórias. Chefe dos amotinados: dr. Sócrates Brasileiro...
Sabe-se: a maioria de nossos grandes jogadores são oriundos da periferia, filhos de famílias dignas, mas paupérrimas.
O mesmo não se pode falar do dr. Sócrates. Filho de família de classe média alta, médico, inteligente, egresso do invejável câmpus da USP, de Ribeirão Preto.
Colhemos os frutos da discórdia. O Brasil foi eliminado.
No retorno (lembro-me bem), o dr. Sócrates diz com a maior serenidade do mundo: “Uma pena. Foi uma pena.” Concomitantemente, a televisão focaliza um torcedor macérrimo, lágrimas lavando-lhe as faces, mostrando apenas os dois caninos na boca cheia de prantos. Era negro o torcedor. Um negro mostrando toda a sensibilidade e ternura desta raça que nos ensinou o caminho do amor.
A partir de então associo os embates futebolísticos às lágrimas, à dor do negro chorando junto ao alambrado. O futebol deixou de ser um motivo de encanto para ser um momento de decepção. Mas... há sempre um mas!... O turbulento, o ruidoso, o buliçoso jogador Romário, dá-nos uma lição a ser praticada, difundida, respeitada, uma lição de carinho, própria de quem tem Deus junto de si: o amor pela filha portadora da síndrome de Down, a Ivy!
Deixei de cultivar amizades antigas diante do preconceito de amigos de longa data, ciosos em esconder filhos especiais.
Romário, não! Exulta-se, orgulha-se em ter nos braços a filha Ivy. E está em busca do milésimo gol... O que representam mil gols diante do carinho que ele tem pela filha?! Ali, bem ali, é possível adivinhar as mãos de Deus! Colocou a Ivy nos braços de quem tem toda a possibilidade para ampará-la, cercando-a de luxo e conforto que ela tanto merece. Romário é o autor de uma frase antológica:
- Pelé, de boca fechada, é um poeta!
Parabéns, Romário! Marque o seu milésimo gol. Marque tantos gols quanto lhe for possível. Mas saiba que o mais belo gol de sua longa e brilhante vida esportiva é justamente este que você traz em seus braços. E o gol tem nome: Ivy, sua filhinha. Parabéns!
Álvaro Baptista Pontes - da Academia Paulista de Imprensa