Quando o pai chegou do trabalho, o filho se aproximou e, com os olhos cheios de admiração, perguntou: “Pai, quanto o senhor ganha por hora?” O pai, sem dar muita atenção ao menino, respondeu: “Escuta aqui meu filho, isto nem a sua mãe sabe. Não amole, estou cansado!” Mas o filho insistiu: “Mas pai, por favor, diga, quanto o senhor ganha por hora?” O pai, sem pensar muito e querendo por um fim à conversa, resolveu responder: “Três reais por hora”. “Então, pai, o senhor poderia me emprestar um real?”
O pai, com certa irritação, comentou: “Então essa era a razão de querer saber quanto eu ganho? Vá dormir e não me amole!” Já era tarde da noite quando o pai começou a pensar sobre a pouca atenção que havia dado ao filho e sentiu-se culpado. Talvez, quem sabe, o menino precisasse comprar algo. Com peso na consciência, o pai foi até o quarto do menino e, em voz baixa, perguntou: “Filho, você está dormindo?” “Não, pai!”, respondeu o garoto meio sonolento. “Olha, aqui está o dinheiro que você me pediu: Um real”, disse o pai. “Muito obrigado, pai”, agradeceu o filho. O menino levantou-se rapidamente e retirou mais dois reais de uma caixinha que estava sob a cama. “Agora já completei, pai! Tenho três reais. Você poderia me vender uma hora de seu tempo?”
O pensador alemão Goethe escreveu, certa vez, que “o homem é o único animal que pode se desumanizar”. Em outras palavras, o ser humano é o único ser vivo no planeta que possui a capacidade de alterar sua natureza. A abelha não consegue se “desabelhar”, o cachorro não consegue se “descachorrar”, o ser humano, porém, pode alterar sua forma de viver e (re-)construir sua realidade. Ao vivermos em sociedade criamos regras de convivência e estruturas que dão significados a tudo que nos rodeia e a nós mesmos. Este mundo cultural criado pelo homem altera sua própria mentalidade.
O desafio maior do ser humano talvez seja o de pensar e de questionar sempre sobre o sentido do universo criado por ele mesmo e os valores contidos na mentalidade produzida através de suas relações sociais, estruturas econômicas, enfim, através de seu mundo cultural. Mergulhados em uma sociedade regida pelas regras do mercado possuímos uma mentalidade marcada pelo consumo. Nesta temos a tendência de mercantilizar tudo que nos rodeia e, infelizmente, também as próprias relações humanas.
Em outras palavras, a luta pela sobrevivência em uma sociedade movimentada pelas leis do mercado nos leva, muitas vezes, a estabelecer, de forma consciente ou inconsciente, um preço para serviços, ações, objetos, transformando tudo em mercadoria. A radicalização desta mentalidade consumista está na mercantilização das relações sociais e do próprio ser humano.
Ao transformarmos nossas relações e a nós mesmos em mercadoria eliminamos a diferença primordial, segundo o filósofo Immanuel Kant, entre coisas e pessoas. Enquanto que as coisas podem tornar-se mercadorias, ou seja, podem ser compradas e vendidas, as pessoas possuem uma dignidade que não lhes permite ser instrumentalizadas. Em outras palavras, as pessoas não poderiam ser “coisificadas”. Porém, o ser humano, ao viver na dinâmica do capitalismo, transfere o esquema de compra e venda próprio do mercado para suas relações na família, na vizinhança, na igreja ou entre os amigos. Assim, nas relações humanas, muitas vezes, são estabelecidos o valor, a utilidade e o lucro que se pode conquistar.
“Há em cada favor uma isca que se crava na mandíbula de quem o aceita, arrastando-o o benfeitor para onde quer” (John Donne). Favores, amizades, afetos, carinhos, elogios, homenagens, proteção, amparo, enfim, os relacionamentos que o ser humano necessita deixam, muitas vezes, de ser sinceros e espontâneos e tornam-se condicionados ao valor de troca que estabelecemos. Como afirma um provérbio árabe, “ao cachorro que tem dinheiro, diz-se Sr. cachorro”.
Na mercantilização de nossas relações humanas se dilui o que há de mais central em nossa dignidade: a autonomia. O que nos caracteriza como pessoas humanas é a possibilidade de exteriorizarmos livremente, nas relações e atividades, nossas emoções e nossos pensamentos. Uma pessoa transforma-se em coisa quando determinamos suas ações, suas emoções e seus pensamentos. Desta forma, ela deixa de ser autônoma para ser heterônoma (“hetero” = fora). Perdemos nossa dignidade e nos “coisificamos” à medida que deixamos de viver com autonomia.
Um ótimo exercício de reflexão sobre a manipulação e a coisificação do ser humano é assistir ao filme “Obrigado por Fumar”, do diretor Jason Reitman.
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