09 de julho de 2026
Saúde

Aleitamento ajuda a diminuir índice de cárie

Por Fernanda Calgaro | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

Dar de mamar no peito para o bebê pelo menos até os 6 meses de idade, seguindo a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), ajuda a reduzir o índice de cárie dentária. E se a criança continuar recebendo leite materno após essa idade também é um fator de proteção contra a cárie. As conclusões são de uma pesquisa feita para uma tese de doutorado defendida no início do ano na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Os fatos comprovados não têm relação com outros hábitos ou fatores e independem de quanto açúcar as crianças passaram a consumir e em que época isso foi feito’’, afirma Luciano Artioli Moreira, autor da tese e presidente da Associação Brasileira de Cirurgiões Dentistas. Portanto, segundo ele, as vantagens do aleitamento materno vão ter reflexo na vida da pessoa mesmo após a infância.

Para o estudo, foram investigadas 158 crianças com até 12 anos de idade. As razões para explicar essa relação Moreira espera encontrar numa nova pesquisa. “É sabido que os anticorpos da mãe presentes no leite são passados para a criança, o que beneficia a sua saúde de modo geral, inclusive a oral’’, diz.

Além disso, ele explica que o leite materno forma uma película protetora que imuniza a gengiva. Um outro aspecto é que o ato de sucção feito pelo bebê na hora de mamar também ajuda a desenvolver e a fortalecer os músculos e ossos da face (incluindo os dentes).

O odontopediatra Danilo Antonio Duarte acrescenta outra explicação que pode influenciar na ocorrência de cárie. “Ao amamentar mais no peito, a mãe dá outros alimentos que podem provocar a cárie em menor quantidade’’, analisa.

Dos três filhos já adultos da comerciante Maria Isabel Sciascia do Olival, 45, a filha do meio é a que menos cáries teve. “Não sei se é uma coincidência, mas ela foi a única que consegui amamentar até os seis meses de idade. O cuidado com a alimentação e higiene sempre foi o mesmo, mas pode ser que o leite tenha feito diferença’’, diz.

A pesquisa concluiu ainda que começar a fazer a limpeza oral durante o primeiro ano de vida do bebê também possibilita menor ocorrência de cárie. Nos bebês ainda sem dentes, é importante passar uma gaze ou uma fralda, massageando a gengiva, o lábio e a língua, com cuidado para não tocar a garganta. Pode ser usada também uma dedeira de silicone.

Ao surgirem os primeiros dentes, a higienização precisa ser intensificada. Com mais de 1 ano, a criança pode começar a usar uma escova infantil sem pasta de dente, explica a cirurgiã-dentista Adriana Marzzoni, autora do “Guia Prático de Odontologia para Gestante e Bebê’’, que deve ser lançado no próximo dia 27.

A pasta de dente pode ser usada desde que seja sem flúor. Segundo ela, a criança pequena acaba engolindo parte da pasta. “O excesso de flúor no organismo causa a fluorose, que provoca manchas brancas nos dentes permanentes que ainda nem nasceram’’, aponta Marzzoni.

Quando já souber cuspir, em geral com cerca de 4 anos, a pasta já pode ser trocada por uma com flúor, mas é importante que alguém supervisione a escovação.

____________________ Depoimento

“Na primeira vez que a Sofia sentou na cadeira de um dentista, ela tinha entre 9 e 10 meses. Mas, mesmo antes disso, eu já tinha recebido orientações da minha dentista, que é especialista em odontopediatria, sobre a chupeta ideal e que tipo de bico usar para a mamadeira.

A Sofia mamou no peito até os 6 meses de idade. A partir do sexto mês, comecei a dar frutas, água e mamadeira com suco. Depois, ela começou a chorar um pouco mais e passei a dar a mamadeira com leite, mas sem açúcar.

Aos poucos, a Sofia foi deixando de mamar no peito. Comecei a fazer a higienização oral na hora em que começaram a surgir os dentes. Quando ela completou 1 ano, passei a ensiná-la a usar uma escova de dente para já ir acostumando.

Depois, ela passou a escovar com um pouquinho de pasta sem flúor, porque aí não tem problema se engolir. Hoje a Sofia adora escovar os dentes. Quando ela está terminando de tomar o leite antes de ir dormir, ela pede: “Dente, dente’’. Ela não tem nenhuma cárie. As pessoas esquecem que a saúde oral é parte da saúde como um todo e não dão importância.”

Adriana Marzzoni, autora do “Guia Prático de Odontologia para Gestante e Bebê’’

____________________ Especialistas alertam

Provar a mamadeira no bico para ver se o líquido está quente antes de dar para o bebê tomar, assoprar a comida da criança e beijar na boca do filho são práticas condenáveis por especialistas. Ao fazer isso, as bactérias na saliva da pessoa passam para a criança, inclusive as causadoras de cáries dentárias.

“Tão importante quanto fazer a limpeza correta é modificar esses hábitos tão prejudiciais’’, afirma a cirurgiã dentista Adriana Mazzoni. “Pode até acontecer de os pais terem a boca saudável, mas a criança, não. Quando vamos ver, o problema está na boca da babá.’’

A chupeta é outro acessório polêmico. “Não existe a mais adequada, mas a menos pior’’, diz Robson Frederico Cunha, professor da odontopediatria da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araçatuba.

O ideal é que a chupeta seja ortodôntica, adequada à faixa etária. Segundo ele, as de cano reto causam maiores danos pois estimulam a língua a ficar em uma posição errada. “Apesar disso, a chupeta causa menos mal do que chupar o dedo.’’ Mazzoni concorda: “A chupeta é possível tirar. O dedo, não.’’