Apesar de gostarem daquilo que fazem, as líderes comunitárias convivem com uma séria dúvida no dia-a-dia: elas não sabem se cuidam da própria vida ou se dedicam todo o tempo livre de que dispõem ao trabalho nas associações de moradores. Diva Dias, 67 anos, já se decidiu. Ela não quer mais representar a população do Jardim Solange (zona oeste de Bauru).
Roselaine Cássia Pletti Mussi, 37 anos, é mais insistente. Apesar de estar desanimada com o acúmulo de tarefas, ela prefere continuar à frente da associação dos moradores das vilas Industrial, Pacífico, Rocha e Alto Paraíso.
Ambas são como mães no lugares onde vivem. “Sempre que alguém precisa de algo vem me procurar”, diz Mussi. Dias também é bastante assediada. “O Jardim Solange tem tantos buracos que até as ambulâncias evitam passar por aqui. Nas horas de necessidade, para quem o pessoal apela? Para mim, é claro”, garante.
Apesar de se mostrarem bastante prestativas, as duas não recebem qualquer tipo de retribuição. “Não aparece ninguém para perguntar se estamos precisando de ajuda. As pessoas não se interessam em saber a quantas anda a associação”, reclama Mussi. A atual diretoria possui 22 membros, mas, segundo ela, apenas quatro participam ativamente da entidade.
Sem apoio, as tarefas se acumulam. “Todo dia fico 24 horas no ar, sem intervalo”, afirma Dias. Na maioria das vezes, as duas são obrigadas a relegar a vida pessoal a um segundo plano para poderem se dedicar à comunidade.
“Não é fácil. Analise meu caso, por exemplo: dois anos atrás, minha filha estava fazendo pós-graduação na Universidade do Sagrado Coração (USC). Nessa época, ela também trabalhava, e chegava tarde em casa. Pense bem: quando minha filha mais precisou de mim, não pude ajudá-la porque estava atrás dos problemas da associação. Ela tinha que vir embora de ônibus ou de táxi, pois eu não tinha condições de ir buscá-la na faculdade”, lamenta Dias.
Há alguns meses, já cansada, ela acondicionou toda a documentação da associação numa caixa e a colocou à disposição do público. “Quem tiver interesse em assumir, pode vir e levar embora”, afirma. Por enquanto, porém, ninguém demonstrou interesse pelo cargo.
“Na verdade, meses atrás, um senhor veio até mim para pedir algumas informações. Ele falou assim: ‘Diva, quanto a gente recebe para ser presidente?’ Dei risada. Coitado, pensava que tínhamos salário! Respondi apenas: “Ganha um susto e uma corrida...”, recorda.