09 de julho de 2026
Política

Tobias cobra autocrítica e rumo no PSDB

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 9 min

Um partido sem rumo em nível nacional, que perdeu as eleições presidenciais por isso, e que, em Bauru, deveria lançar mão de uma iniciativa inédita para definir o candidato a prefeito: abrir as prévias - que tradicionalmente são apenas internas e servem para efetivar as candidaturas - para a participação da população. É o que considera e defende o deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) ao analisar a situação do partido no País e na cidade. Ele falou ao JC anteontem, no Café com Política.

Para o parlamentar, a atual falta de identidade ideológica tucana foi a grande responsável pela perda das eleições para Lula. “Temos de fazer essa autocrítica. O partido está sem rumo e apanhamos nas eleições por isso”, frisou Tobias. Ele sustenta também que as prévias abertas são um instrumento mais justo, democrático e representativo na escolha das candidaturas. “Bauru poderia dar um exemplo ao País adotando essa prática”, enfatizou.

Tobias também falou sobre a possibilidade de conquistar a liderança da bancada tucana e, sobre suas ligações com o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), além de negar que será candidato a prefeito e considerar que o nome de Caio Coube ainda não está totalmente descartado para disputar a prefeitura.

Por fim, o parlamentar sustenta que somente com a mudança da lei federal, que proíbe as prefeituras de cobrarem pela pavimentação asfáltica, Bauru poderá ter as ruas asfaltadas. A seguir, os principais trechos da entrevista:

JC – Você está confiante em conquistar a liderança da bancada mesmo tendo uma forte identificação com o ex-governador Geraldo Alckmin?

Tobias – Continuo. Caso contrário abriria mão da disputa. Mas é preciso também ver a maioria da bancada, porque líder de bancada não é um cargo eleito. A bancada pode tirar o líder na hora que quiser. Estamos analisando e há dois candidatos companheiros nossos, mas nunca escondi e é uma realidade minha gratidão por Geraldo Alckmin. Mas também vou ajudar, dentro dos meus limites, o governador José Serra, porque tem essa de ser Geraldo ou Serra. É o PSDB e precisamos acabar com essa fofoca de que há um grupo de Geraldo, outro de Serra e outro de Fernando Henrique Cardoso. Isso é ruim tanto para o País, quanto para o partido e o Estado.

JC – Mas o senhor acha que isso vai acabar pesando na decisão final?

Tobias – Não acredito. Tem algum fofoqueiro falando isso, mas acho o governador muito maior que isso. Uma pessoa como José Serra, candidato já declarado à presidência da República, não pode se preocupar com coisas pequenas. Ele pensa maior que essas briguinhas dentro de bancada ou de partido.

JC – Qual sua avaliação do governo Serra?

Tobias – Estou gostando. Ainda não começou para valer, pois aprovou o orçamento ainda não tem um mês. Mas de algumas idéias estou gostando, como o projeto de recapear 4 mil quilômetros de vicinais e a abertura de 22 ambulatórios de especialidades regionais. Serra é preparado para tudo, até para a presidência da República. Sempre no começo, um governo novo põe o pé no breque para definir os projetos mais importantes e, como ele ganhou bem a eleição no primeiro turno, tem essa legitimidade.

JC – E a redução do programa Escola da Família feita por Serra?

Tobias – Não concordei em reduzir pela metade, mas a justificativa técnica é de que algumas escolas devem ter 50 metros de outra e não estava funcionando. Isso é dinheiro público, mas se depender de minha vontade, vou cobrar para funcionar nos locais onde não estavam funcionando. Foi um projeto premiado pela Organização das Nações Unidas (ONU), foi bem aceito pela população e já está sendo copiado por outros países. Mas é legitimidade dele, pois estamos dentro de um regime presidencialista.

JC – O senhor não acha que os governos precisam parar de abandonar projetos interessantes só porque foram implementados por outros partidos?

Tobias – Lamento que, muitas vezes, não há projetos para o País, Estado e prefeitura. Por exemplo, os projetos dos mutirões de catarata e próstata do Serra foram cortados pelo Lula. Infelizmente, o político brasileiro e a sociedade brasileira não estão acostumados a fazer projetos permanentes.

JC – O senhor não acha que os políticos olham muito para seus projetos pessoais e esquecem dos outros?

Tobias – Concordo plenamente. Infelizmente, os governantes fazem projetos e nem discutem com seus partidos. E isso existe no Brasil. Muitas vezes, dizendo que é por falta de dinheiro, um começa um projeto e outro larga. Veja lá o viaduto inacabado, os lotes urbanizados. Bauru pagou caro porque isso não foi discutido com ninguém, o prefeito fez um projeto e o outro não continuou.

JC – E como mudar isso?

Tobias – Tempo e educação. O político não faz o povo, mas o povo que faz a política. Lembro de uma frase dita por um jovem francês quando estava moço e estava chegando na França quando Charles de Gaulle pediu demissão: “Vocês do Terceiro Mundo bajulam muito os homens. Nós bajulamos as instituições. A França, existe antes de Gaulle, existiu durante e vai existir depois. Ele não é a França e ninguém é insubstituível”. E realmente nós do Terceiro Mundo em geral bajulamos muito os homens e esse é o maior problema político brasileiro. Não há lideranças de idéias e projetos. Isso é cultural e só se muda a longo prazo.

JC – O senhor sempre foi crítico aos encontros do PSDB, que não se discutem projetos enquanto se perde tempo em discutir candidaturas. O senhor continua pensando assim?

Tobias – O maior problema do PSDB hoje, na questão macro, é que está sem rumo. Tanto que apanhamos na última campanha presidencial.

JC – Foi por isso que o PSDB perdeu?

Tobias – Foi. Está sem rumo e precisamos fazer essa autocrítica. Veja a questão das privatizações. Sou favorável e a prova é que a Companhia Vale do Rio Doce é a melhor do mundo no ramo da mineração, hoje todo mundo tem telefone celular e a Embraer estava quebrada. Ou as defendemos ou somos contra e não fazemos. Acho que precisamos ver o que o partido quer. O Brasil não tem estrutura partidária forte e os partidos ficam a reboque do Executivo. Isso ocorreu com o PT, pois hoje Lula sente-se maior que o partido, e eles vão a reboque dele. E quando alguém chega na cadeira do Executivo, esquece que o mandato é curto, mesmo com a reeleição. E isso é ruim para o partido. E com o PSDB, defendo que precisamos de um salto de qualidade, e não quantidade. Não adianta ficar buscando só candidaturas a prefeito e vereadores. Precisamos fazer gente de qualidade. E hoje quem está segurando o PSDB é o Fernando Henrique Cardoso, que é uma autoridade nacional. Se amanhã o Fernando Henrique morre viramos um PMDB com cada Estado com uma liderança separada. Hoje chego em uma reunião, falo de um assunto e não temos orientação de partido e o que queremos. A questão é ideológica. Cada um fala o que quer e não há um discurso unificado. Precisamos definir ou corremos o risco de virar uma federação que em época de eleição entra para ter legenda e sempre vai a reboque dos outros. Isso me preocupa muito.

Nosso presidente atual, Tasso Jereissati, está sugerindo que para definir o candidato a presidente, a prévia não seja só no partido, mas também com a população. Por que não? Se hoje todos os partidos políticos reúnem seus filiados, não chega a 2% da população e esse percentual decide tudo. Então, porque não fazer as prévias com a população? Em Bauru estão falando no Caio, no Marcelo e no Garmes como candidatos, vamos fazer prévias e, se dependesse de mim, quem sabe Bauru não dá exemplo para o Brasil e faz prévias com a população e não só com os filiados?

JC – Seria menos cômodo para o partido...

Tobias – Mas seria mais justo e representativo. Quantos membros temos no partido? São poucos e, por isso, se dependesse de mim iríamos fazer as prévias abertas à população e não só dentro do partido. É mais democrático.

JC – O senhor vai ser candidato a prefeito?

Tobias – Não. Já tentei uma vez e foi um erro. Peguei mais de 100 mil votos em Bauru e mais de 100 mil na região. Não tenho direito de abandonar isso e já tenho esse compromisso. Acho que uma cidade igual a Bauru é capaz de gerar um candidato e acho que não pode ser uma pessoa só. Sempre falo que prefiro ser um soldadinho dentro de um exército forte do que um general sem exército. Acho que não posso querer ser tudo e tenho de abrir espaço. Veja o caso do Caio, que saiu candidato e não ganhou, mas hoje tem nome. Se não saísse candidato, não teria nome. Ganhar e perder é outra história e nosso grupo gosta de ganhar, mas mesmo o candidato que sai e perde faz seu nome. Por isso, sou taxativo e digo que não sou candidato a prefeito.

JC – O senhor disse que Caio fez o nome mas mesmo assim não quis disputar novamente porque estava desencantado com a política. Mas é verdade que ele se desgastou dentro do PSDB e com o senhor também?

Tobias – Não. Em um partido democrático como o nosso, qualquer militante, o mais humilde que seja, pode colocar o dedo na minha cara e de outro. Acho isso bom, porque lá não tem deputado, médico, metalúrgico ou desempregado, pois todo mundo é militante e tem a liberdade de falar. Acho que a saída dele foi bem aceita, muita gente gosta dele e é algo natural. Também não descartei 100% Caio de ser nosso futuro candidato a prefeito, mas ainda tem o Marcelo Borges, Toninho Garmes, que são excelentes. Vejo declaração dele saindo da presidência como uma coisa, mas ele pode ser candidato também. Além disso, não teve desentendimento nenhum comigo e acho que ele pode ter uma visão um pouco diferente da minha, o que é natural.

JC – Então qual o motivo dele já ter declarado que teve de aceitar muitos problemas dentro do PSDB?

Tobias – Na política a gente é obrigado a aceitar problemas todos os dias. A vida é assim em todos os lugares, no comércio, na indústria e no casamento.

JC – E a agenda comum em busca de recursos discutida com o prefeito Tuga Angerami? Quais são as prioridades?

Tobias – Acho a Nações Norte uma das mais importantes, mas a obra mais importante para Bauru hoje seria o tratamento do esgoto. Pois cada R$ 1,00 investido nisso significa uma economia de R$ 2,00 na saúde. Além disso, vejo muitas coisas tão importantes quanto o tratamento de esgoto. O atual prefeito e o futuro prefeito têm tantas coisas para ver, principalmente o asfalto. E, para isso, acho que deveria ser mudada a lei federal que proíbe as prefeituras de cobrar pelo recapeamento. Hoje não tem mais asfalto, só buraco. Acho que a lei federal não deveria interferir na administração municipal.