Na semana passada, em uma entrevista, falei que o conta-giros não é um enfeite no painel, e sim um dos instrumentos mais importantes do carro. Na verdade, o considero o mais importante, juntamente com o manômetro de óleo, porque estes instrumentos nos fornecem dados importantes sobre o funcionamento e as condições do motor.
O conta-giros - ou tacômetro, seu nome oficial -, mede a rotação do motor a cada instante e nos fornece informações necessárias para a boa utilização e aproveitamento do motor. Sabe-se que o motor trabalha dentro de uma faixa de rotações, esta variando desde a marcha lenta até a rotação máxima. A marcha lenta é a mínima rotação que ele consegue manter sem tender a se desligar sozinho, isto em função da baixa potência gerada nesta rotação, que deve superar a somatória de todos os atritos internos do motor para mantê-lo girando. Já a rotação máxima é aquela que não deve ser superada para evitar danos físicos aos componentes do motor. Também é limitada por condições de projeto, como as molas de válvulas, por exemplo, que acima de certa rotação perdem a capacidade de retornar tão rapidamente quanto esperado e propiciam a chamada flutuação de válvulas. Este é um fenômeno que ocorre quando o eixo comando de válvulas gira mais rápido do que as molas conseguem retornar e fazem com que as válvulas de admissão e de escape não se abram nem fechem corretamente, embaralhando o funcionamento do motor. Então, aí está a mais elementar função do conta-giros, que é a de nos avisar se estamos dentro da faixa correta de funcionamento do motor. Se a rotação da marcha lenta estiver instável, isto é, ficar oscilando para cima e para baixo e não permanecer constante, significa que precisamos verificar e corrigir a alimentação de combustível da marcha lenta ou regular a ignição (ângulo de avanço, cabos, velas). Já indicar a rotação máxima serve para que não a excedamos quando esticamos a marcha em acelerações mais fortes. Por falar nisso, quando quisermos acelerar rápido, o correto é trocar de marcha apenas quando atingimos a rotação máxima, pois a marcha seguinte cairá dentro da faixa de rotação de torque máximo, tendo a máxima força disponível do motor para continuar acelerando.
Se usarmos o carro em condições normais de cruzeiro, em uma estrada, por exemplo, o ideal é que se viaje a uma velocidade em que a quinta marcha permita que o motor esteja na faixa de rotação de torque máximo. Como saber qual é esta faixa? Mais uma vez, leia o manual do proprietário, que traz esta e muitas outras informações. Cada motor tem uma potência máxima (geralmente na rotação máxima ou um pouco abaixo desta) e um torque máximo, que podem variar a faixa de rotação em função de diversos fatores, como tipo de comando de válvulas, por exemplo. O correto é verificar qual é a faixa de torque máximo do motor de seu carro no manual. Caso não o tenha mais por algum motivo, use uma regra simples de emergência: considere em motores de comando simples a rotação de torque máximo como a metade da rotação máxima indicada no contagiros, identificada em vermelho; para motores com duplo comando (16 válvulas, por exemplo), considere a faixa de torque máximo como 60 a 70% da rotação máxima. Pode não ser exata, mas é próxima, para indicação apenas. O motivo é simples e técnico: o torque é uma medida da força do motor em cada rotação e o torque máximo indica que a maior eficiência do motor é atingida naquela rotação. Portanto, teremos a maior força com o menor consumo de combustível. Por isso é que se rodarmos em quinta marcha em velocidade de cruzeiro, dentro da faixa de rotações de torque máximo, teremos a melhor performance em consumo de combustível. Na maioria dos carros de passeio esta velocidade se dá dentro da faixa legal de tráfego, ou seja, de 100 a 120 km/h. Por isso é que andar devagar não é sinônimo de economizar combustível. Aprenda a usar o conta-giros a seu favor!
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e assina uma coluna na revista Quatro Rodas Nitro. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.