Quanto dura uma vida? Às vezes poucos décimos de segundo, um dia, 40 anos, 70 anos, 80 anos, 120 anos. Mas a vida do senhor Francisco (nome fictício) já ultrapassou os 70 anos. Foi assim que fotografei em minha mente o sr. Francisco quando caminhávamos em direção ao Estádio Alfredo de Castilho, andar altivo, fiquei imaginando quantas decepções na vida, mas quantas alegrias também, seu caminhar era de quem iria para direção do gol. Senhor Francisco atravessou a rua sem titubear, deu uma olhada ao lado e eu o acompanhei, e fomos em direção ao gol, ou seja, em direção ao estádio do Noroeste; antes de chegarmos falou do descontentamento quanto aos grandes clubes e suas falcatruas. Senhor Francisco, radinho na mão. Sabe, senhor Francisco, o senhor ficou em minha memória, mesmo porque antes de adentrarmos no estádio nos desencontramos.
O senhor disse: “Vou ver se eles me deixam entrar por este portão, assim eu ando menos”, e entrou mesmo e lá se foi o senhor Francisco. Por surpresa minha nos encontramos novamente na arquibancada, em uma conversa e outra o senhor Francisco disse que havia adquirido um pacote dos jogos do Noroeste, e o aguardava, a sua cadeira numerada, reclamou do excesso de fumaça do cigarro de um outro torcedor que se sentava a sua frente e que em todos os jogos o encontrava ali. Senhor Francisco, o Noroeste perdeu para a Ponte Preta, primeiro tempo decepcionante, mas o segundo quanta emoção, hein, senhor Francisco? Não pude vê-lo vibrando, afinal, o senhor Francisco estava nas numeradas.
É, senhor Francisco, o Noroeste perdeu, mas não posso esquecer e nem desligar a velha máquina fotográfica. Quantos Franciscos, quantos Joões, Pedros com mais de 60 anos, 70 anos, voz quase rouca, gritando... caramba... tira esse cara, vai Vandinho, vai Leandrinho... não volto mais aqui, mas que belo jogo, hein senhor Francisco? Calma, senhor Francisco, não deixe o sonho morrer. Noroeste, Leandrinho, Vandinho e todo elenco não deixem o sonho do senhor Francisco morrer, vocês são a alegria de milhares de Franciscos. Todos os Franciscos, talvez com muitos fracassos e derrotas na vida, eles não admitem ver o seu time do coração perder, é inadmissível, quem nunca ouviu muitos Franciscos dizerem: “Só fazem isso... ganham bem”. Senhor Francisco, não desistamos, o grito está preso, amanhã será outro dia e viva o Norusca.
João Fagundes Filho - RG 12.545.319