A prática da clínica psiquiátrica no dia a dia faz com que o clínico se defronte hora com doenças de fato e hora com julgamentos de valores, experiências subjetivas de transtornos. Estes últimos - transtornos - podendo ter como base uma doença ou não.
Alguns diagnósticos podem ser objetivados em exames, tal como a doença de Alzheimer, encontram-se alterações na ressonância magnética, presença de depósitos de corpos amiloídes. Num paciente com Alzheimer, há um lado doença, objetivável em exames alterados e, um outro lado subjetivo, isto é, o transtorno mental, perda de memória, ansiedade e agressividade.
Mas nem todos os transtornos mentais são objetiváveis ou completamente explicáveis como doença, do ponto de via biomédico, demonstráveis em exames. É muito comum na prática psiquiátrica, ouvir de familiares que sejam feitos exames para objetivar os transtornos mentais, vividos subjetivamente pelos pacientes. Há quadros clínicos subjetivos observados e considerados transtornos mentais sem substrato biológico demonstrável, pelo menos até o nível tecnológico atual. Exemplo são os transtornos de personalidade limítrofes.
Transtornos de personalidade são padrões de perceber, pensar e agir desadaptados, mas que não tem um exame que demonstre substratos alterados. Neste transtorno, o paciente age impulsivamente, e é instável emocionalmente, seus relacionamentos são tensos e apresenta crises temperamentais freqüentes. Apesar da significância clínica e gravidade observáveis, pesquisas tentam achar suas bases biológicas.
Essa dicotomia transtorno-doença leva a uma dicotomia sobre valores e fatos. Fazem-se a descrição de fatos ou objetos, tal como, “Essas maças são vermelhas e consistentes”. Isto é um fato. Ou diz-se “Essas maças são boas”, juízo de valor subjetivo. Algumas doenças são mais objetivas baseadas em juízos de fatos e outras mais subjetivas baseadas em juízos de valores. Alguns transtornos mentais podem ser reduzidos a fatos biológicos com alterações de exames e outros, são subjetivos e muito mais avaliados do ponto de vista subjetivo, sujeitos a juízos de valores e morais. Alguns autores chegam dizer que a Psiquiatria é uma tentativa de medicalizar problemas morais dos indivíduos.
Os psiquiatras trabalham conjuntamente com psicólogas e assistentes sócias. Por um lado tem-se a abordagem médica que procura reduzir o transtorno mental a uma doença, por outro lado tem-se um indivíduo transtornado com estressores psicológicos e sociais abordados pela Psicologia e Ciências Sociais.
Todo doente é uma pessoa com toda sua subjetividade mais a doença, mais ou menos expressáveis por transtornos subjetivos. Por outro lado pode-se ter transtornos sem doenças demonstráveis por exames, mas existentes do ponto de vista disfuncional e clinicamente significativas. A Psiquiatria é a placa tornante entre o biológico e o psico-social.
Carlos Manuel Cristóvão - médico psiquiatra - CRM 88.611