Começamos o ano de 2007 na expectativa de novos governos, de mudanças. A esperança é a de que tanto em nível estadual quanto federal sejam adotadas políticas sociais compatíveis com as necessidades do país, sempre em desenvolvimento.
A urgência da implantação de políticas sociais competentes fica patente em situações agudas, como a trágica morte do menino João Hélio. São episódios que nos deixam atônitos. Esse caso, em particular, até hoje provoca revolta e uma terrível sensação de insegurança e impotência. Não pode ser diferente, afinal, em primeiro lugar, somos seres humanos, não animais. Além do mais, quase todos temos esposas e filhos, que também circulam de carro diariamente.
Muitos outros dramas semelhantes vêm se repetindo. Virou rotina matarem ou seqüestrarem, principalmente jovens. Há uma discussão sobre a violência e como combatê-la. Alguns caminhos apontados são a diminuição da maioridade penal, a construção de presídios, penas mais rigorosas e até a pena de morte. Compreendemos que essa última representa um triste conceito e já se comprovou ineficaz no mundo inteiro.
A cada dia fica mais claro que existem situações de violência relacionadas diretamente com a vida moderna, a competitividade e a globalização, principalmente nos grandes centros urbanos. Porém, é fundamental entender que são as diferenças sociais as agravantes do problema. O Brasil conta com um exercito de desempregados, de adolescentes sem perspectivas que são facilmente cooptadospela máquina do crime e o tráfico de drogas.
Some-se a isso a falta de competência das instâncias de poder: o executivo tem sido omisso; o legislativo age de forma fisiológica e faz barulho apenas quando acontece uma tragédia; e o judiciário é extremamente lento e sua morosidade é um empecilho à justiça. Para piorar, a polícia está desvalorizada, sem recursos e ferramentas adequadas para garantir a segurança dos cidadãos.
Some-se ainda a tudo isso o péssimo exemplo do parlamento anterior. Envolvido em escândalos de propina, pensava em tudo, menos em priorizar o desenvolvimento humano e o financiamento da saúde e à educação. Resultado: queda na qualidade do atendimento aos pacientes, no processo de ensino, e em outros indicadores sociais. Sem falar na contrapartida de Tróia, juros e tributos astronômicos, impeditivos ao crescimento.
Tenho a sensação de estar repetindo conceitos, provavelmente já toquei nesses assuntos diversas vezes. Infelizmente nossas mazelas também se repetem. Sendo assim, é indispensável denunciá-las a cada segundo e exigir soluções com a mesma intensidade. Temos de cobrar vigorosamente os governantes e a classe política para que façam seu papel e coloquem em prática projetos sociais coerentes. A Frente Parlamentar para a Saúde é uma grande esperança.
Em defesa da cidadania também são nossos movimentos dentro da medicina. Não aceitaremos que faculdades formem médicos inadequadamente e sem necessidade social, só para amealhar riqueza. Não aceitaremos médicos de Cuba, de quaisquer outros pontos do mundo e nem mesmo brasileiros formados fora do País sem validação dos diplomas, sem que comprovem que estão aptos a atender bem a nós, a nossos filhos, a todos os brasileiros.
Denunciaremos a falta de investimento adequado para a saúde publica, a falta de resolutividade do sistema, a exclusão branca realizada por certos planos de saúde e tudo aquilo que é nefasto na medicina e em todas as áreas.
É fundamental que todos se unam e lutem muito. Assim, teremos condição de influenciar o presente e o futuro. Mais tarde, diferentemente de agora, quando ainda choramos a perda do menino João Hélio, seremos fortes o suficiente para garantir a realização de investimentos e a valorização das políticas sociais no Brasil. Certamente teremos um país muito melhor do que temos hoje.
O autor, Jorge Carlos Machado Curi, é presidente da Associação Paulista de Medicina.