09 de julho de 2026
Cultura

‘Volver’, de Almodóvar, sai em DVD

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

Em outras épocas, um filme como “Volver”, um dos mais discutidos e elogiados do ano passado, multipremiado e indicado ao Oscar, só teria chegado ao público bauruense meses após a poeira ter se dissipado. Com a programação variada nos cinemas, entretanto, a última produção de Pedro Almodóvar e os decotes de Penélope Cruz puderam ser vistos em tela grande. O lançamento do longa em DVD é a chance de rever – ou finalmente conhecer – uma história que marca o retorno do diretor espanhol ao universo feminino que tanto lhe é próprio.

Embora os temas principais de “Volver” sejam a morte e a violência familiar, o talento de Almodóvar se destaca ao criar humor e leveza de situações dramáticas e esdrúxulas, especialmente no reencontro com “suas mulheres”, Penélope Cruz e Carmen Maura. Se o diretor carrega nas cores e nos focos em primeiro plano, é somente para deixar brilhar a musa Penélope. A atriz espanhola nunca esteve tão bem na tela, em um papel profundo, forte e doce. Almodóvar e a atriz não trabalhavam juntos desde “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999).

O reencontro mais esperado de “Volver”, no entanto, após 17 anos, é do diretor com Carmen Maura, estrela de momentos brilhantes da carreira de ambos na década de 1980 – “Maus Hábitos”, “O Que Eu Fiz para Merecer Isso?”, “Matador”, “A Lei do Desejo” e, principalmente, “Mulheres À Beira de um Ataque de Nervos”.

Outros retornos de Almodóvar são a comédia como tom de “Volver” e a história passada em La Mancha, região da Espanha onde o diretor cresceu. “Este é sem dúvida o meu filme mais estritamente manchegano: a linguagem, os costumes, os pátios, a sobriedade das fachadas e as ruas cobertas com paralelepípedos. Voltei também ao tema da maternidade, como a origem da vida e da ficção. E, naturalmente, voltei para minha mãe. Voltar à La Mancha é sempre voltar para o seio materno”, comentou o diretor, em entrevista divulgada pela distribuidora na época do lançamento nos cinemas.

A memorável cena inicial de “Volver” acompanha um pelotão de viúvas e órfãs limpando os túmulos de seus entes no cemitério de La Mancha, sob o vento Leste que, dizem, perturba os vivos e os espíritos. Entre as mulheres, estão as irmãs Raimunda (Penélope Cruz) e Sole (Lola Dueñas), cujos pais morreram em um incêndio anos atrás. Antes de voltar a Madri, as irmãs param para visitar Tia Paula (Chus Lampreave), que vive sozinha, está com a mente confusa e parece conversar com a mãe das sobrinhas, Irene. Na vila, comentários dão conta que Irene (Carmen Maura) voltou da morte para cuidar da irmã.

Na cidade, Raimunda esforça-se para sustentar a casa, enquanto seu marido, Paco (Antonio de la Torre), passa os dias em frente à TV, supostamente em busca de um emprego que nunca aparece. Um incidente dentro de casa no mesmo dia em que chega a notícia da morte de Tia Paula são os ganchos para desfilar seqüências que pareceriam chocantes ou bizarras sob a ótica de qualquer outro diretor, mas que Almodóvar transpõe com leveza. A limpeza do sangue e o abraço das mulheres de La Mancha em Sole são os melhores exemplos desse talento.

Voltando à vida

Cuidando do restaurante de um vizinho, Raimunda decide aceitar a proposta de cozinhar para uma equipe de filmagens que trabalha na vizinhança, enquanto Sole, ao voltar de La Mancha após o enterro da tia, aprende a lidar com o fantasma de sua mãe, que se passa por imigrante russa para as clientes de seu salão de cabeleireiro.

É o principal retorno do filme: o retorno das personagens à vida, com as cores e emoções que lhes faltavam, mesmo que não percebessem. A volta também reapresenta os dramas a serem encarados (a morte e a violência familiar) e completa o ciclo que o diretor cria para a família, pais e filhos, irmãs e amigas – ciclo esse que não recebe solução nem encontra fim, mas apenas a construção de um comovente roteiro de autoria do próprio Almodóvar.

Do olhar generoso aos personagens à ausência de julgamento moralista para seus atos, “Volver” é filmado com grande beleza, com fotografia de José Luis Alcaine e música de Alberto Iglesias – que já trabalharam com o diretor inúmeras vezes.

O filme ainda é menor do que as duas obras-primas de Almodóvar, “Tudo Sobre Minha Mãe” e “Fale Com Ela”, especialmente em razão do final anticlimático. No entanto, uma obra menor de um dos melhores cineastas em atividade no mundo atual não está disponível todos os anos. Envolvente, brilhante, trágico e engraçado, tudo como só ele sabe criar.