07 de julho de 2026
Ser

Ciberdiários

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

“Sonhei que dormíamos no banheiro do shopping. Esse programa eu realmente só faria com ele! Depois, brincar no parque feito criança. E tomar sorvete se lambuzando. E rir, rir, rir. Falar besteiras sem usar palavras baixas.”

Em outras épocas, o trecho, de autoria da jornalista Marcele Luize Pereira Ferreira, poderia ter sido “roubado” de um diário pessoal, espaço íntimo de anotações onde as pessoas, em geral as adolescentes da década de 80, contavam suas lembranças, histórias e sentimentos. O primeiro beijo ou uma briga com os pais, por exemplo, eram histórias inconfessáveis e guardadas a sete chaves no caderno. O trecho escrito por Marcele, 25 anos, porém, foi retirado do seu weblog, ou simplesmente blog, uma página pessoal publicada na Internet.

Também conhecida como ciberdiário ou diário virtual, essa ferramenta pipoca na rede em um ritmo frenético e permite que seus usuários a utilizem para se comunicar de forma livre e aberta. É um espaço de expressão pública que funciona como álbum de fotografia, diário, agenda virtual, espaço para divulgação de idéias, pensamentos e artigos, jornal on-line e fã-clube, aponta Maria Regina Momesso de Oliveira.

Doutora em lingüística e professora de comunicação da Universidade do Sagrado Coração (USC), ela apresenta um artigo especialmente sobre weblogs no livro “M. Foucault, e os domínios da linguagem – discurso, poder, subjetividade” (editora Claraluz). De acordo com Maria Regina, o blog é um recurso tecnológico bem conhecido entre o público jovem, que o utiliza para publicar páginas pessoais.

As temáticas são as mais variadas, mas quase todas se baseiam no cotidiano dos adolescentes, analisa ela. “São auto-narrativas e auto-tematizações sobre os amores, as músicas preferidas, os esportes, as frustrações do dia-a-dia, as dúvidas internas e externas do ‘eu’, as crises, exposição pessoal em busca de reconhecimento, enfim, sentimentos, sensações e modos de pensar que são registrados sob a forma de relatos do cotidiano.”

O blog de Marcele, por exemplo, tem um tom literário. Em forma de prosa e também verso, ela expressa pensamentos e demonstra emoções inspiradas, na maioria das vezes, em fatos da sua vida. Com poucas fotos e um layout “clean”, a página de Marcele traduz alguns traços de sua personalidade. “Tenho necessidade de escrever. É uma terapia para mim e por meio do blog consigo elaborar melhor meus sentimentos”, diz ela, que possui o diário virtual há mais de um ano.

Objetivo semelhante tem o blog da universitária Gabriela Ribeiro Delazari, 18 anos. Ela possui o diário virtual há dois anos e conta que utiliza a ferramenta como um espaço para se expressar. “Há pessoas que o usam como se fosse apenas um álbum de fotos. Eu coloco imagens, mas na maioria das vezes falo como foi meu dia e sobre coisas que aconteceram no cotidiano”, revela. Apesar de permitir que outros indivíduos compartilhem momentos de sua vida, Gabriela se sente incomodada. Para preservar sua intimidade, ela aposta em uma tática: “Sempre há curiosos. Todo mundo tem acesso ao meu blog, mas só escrevo coisas que as pessoas podem ver”, diz.

Marcele também toma certos cuidados na hora de expor suas experiências na Internet. “Nunca tive problemas com o blog. Encerrei minha conta no Orkut porque achava meio invasivo. O blog virou meio cantinho, onde me comunico com as pessoas que conheço. Na hora de escrever, seleciono”, diz. Para evitar que sua intimidade se torne pública, afirma ela, o próprio blogueiro deve saber impor os limites na sua página virtual.

A estudante Luana Cristina dos Santos, 17 anos, concorda com Marcele. Ela mantém, há um ano, um vibeflog. A técnica é semelhante ao weblog, mas ao invés de textos, prioriza fotografias e recursos gráficos. “Tenho fotos minhas, das minhas amigas, momentos de lazer e alguns depoimentos. Ultimamente postei fotos novas”, conta. Apesar de conter dezenas de fotos pessoais, nenhuma das imagens interfere em sua intimidade, diz Luana. “Seleciono e, neste sentido, o vibeflog não influenciou tanto em minha vida. Através dele conheço gente nova, faço amizades. Há pessoas que nunca vi antes que visitam a página e fazem comentários.”

A estudante Amanda dos Santos Tauil também é blogueira. Aos 12 anos, ela possui dois vibeflogs, os quais abastece diariamente com fotografias suas e de seus amigos. “Acho legal porque através dele conheço mais pessoas e faço amigos. Não tenho diário. Acho que a Internet é como se fosse um diário, mas com imagens”, conta. Apesar de manter seu blog sempre atualizado, Marcele, porém, não abre mão do tradicional diário de papel. É neste espaço que ela revela suas confidências e intimidades.

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Significado

Em seu artigo “Weblogs: a exposição de subjetividade adolescente”, a doutora em lingüística Maria Regina Momesso de Oliveira explica que o termo weblog é derivado da união das palavras inglesas web (rede, teia, tecido e ambiente) e log (diário de bordo). Segundo ela, o formato do blog é semelhante a uma webpage, com a diferença da agilidade e da facilidade de registrar e atualizar informações. Não é necessário ter conhecimento de programação em HTML, uma vez que existem sites que disponibilizam o serviço, muitos deles gratuitos, com instruções fáceis sobre a criação e alimentação dos programas.

Da Redação