As motivações são muitas. Seja por influência da família, para se identificar com o grupo de amigos, por puro modismo ou induzido pelas propagandas, fumar é um dos hábitos mais disseminados em todo o mundo. Para começar basta a curiosidade, mas deixar o cigarro é mais complicado do que possa parecer. Um estudo feito em 15 países mostra que abandonar o vício é uma tarefa quase impossível para 70% dos fumantes. Outros 56% disseram que parar de fumar é considerada a missão mais difícil que já tiveram na vida.
Pelo menos 200 mil brasileiros são vencidos pelo cigarro todos os anos. Esse é o número de pessoas que morrem prematuramente por causa de doenças associadas ao tabagismo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).
A cada oito segundos, alguém morre de uma doença relacionada ao cigarro. Mas o aparecimento de novos fumantes é tão rápido quanto o desaparecimento deles. Segundo a OMS, o tabagismo causa cerca de 50 doenças, sendo que 20 são fatais.
Mas afinal, por que é tão difícil largar o cigarro, mesmo sabendo que ele faz mal à saúde? Segundo especialistas e fumantes ouvidos pelo Jornal da Cidade, a dependência não é apenas física, mas também emocional. Muitos consideram o cigarro um companheiro de todas as horas. É o amigo que está sempre à mão, com quem é possível compartilhar alegrias e tristezas.
“O cigarro acaba estabelecendo com o fumante uma relação de ‘amizade’, de prazer. E, convenhamos, é muito difícil abrir mão de algo que está agradando”, afirma a psicoterapeuta Cláudia Catão Alves Siqueira, especialista em dependência química.
Entre os mais pobres, fumar também é um meio de enganar o estômago. Ele substitui o café da manhã, o almoço ou o jantar, quando não se tem alimentos à mesa.
Em todo o mundo, estima-se que haja cerca de 1,2 bilhão de fumantes – o que representa um terço da população mundial adulta.
A pesquisa “Tabagismo: compreensão das percepções de pessoas, opiniões e reações ao tabaco” (Support - sigla em inglês), ouviu 3.760 fumantes de 15 países (Brasil não foi incluído) na tentativa de decifrar o mecanismo psicológico da dependência de tabaco e nicotina.
O estudo constatou que para 91% dos fumantes parar de fumar é uma questão de força de vontade. Entre os que procuram parar, apenas 45% conversam com os médicos sobre essa decisão. Isso reflete um outro dado levantado pela pesquisa: para 27% dos fumantes, o médico não está qualificado para ajudá-lo a parar de fumar. 36% dos médicos ouvidos pela pesquisa concordam com isso. Outros 78% dizem que não estão preparados tão bem quanto deveriam para ajudar o fumante em sua decisão de parar com o vício.
O cardiologista André Saab conta que sempre conversa com seus pacientes quando fica sabendo que são fumantes. “Sabendo dos malefícios do cigarro, eu tento estimular ao máximo o paciente a parar de fumar”. Segundo ele, existem medicamentos que ajudam nessa tarefa “quase impossível”, mas o sucesso da empreitada depende quase que exclusivamente do fumante.
“Em primeiro lugar, a pessoa tem de querer parar de fumar. Se ela não quiser, não há medicamento que funcione. Tem muita gente que fala que quer parar, mas isso fica só no discurso, é tudo da boca pra fora. Na prática, nada acontece”, destaca o cardiologista.
O vício é tão forte que nem mesmo pessoas que estiveram entre a vida e a morte por causa do cigarro deixaram de fumar. “Tenho pacientes enfartados, que colocaram pontes de safena, que é uma cirurgia dolorosa, demorada, com um risco altíssimo de morte, e continuam fumando”, comenta Saab. “Se nem isso foi suficiente para fazer ele parar, não vai ser uma conversa que vai funcionar”, afirma.