De acordo com o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, o ciclo de desenvolvimento humano e social mudou a concepção de mundo e do homem e de seu papel. A pessoa passa a não enxergar mais a família como ambiente para a realização das suas necessidades. Em contrapartida, busca o prazer a qualquer preço, de forma solitária.
“Principalmente após a Segunda Guerra Mundial, aconteceu um processo que nós denominamos autonomização do sujeito. A quebra da preocupação do indivíduo em ser o bom moço, o pai de família, de corresponder às expectativas perante à sociedade. Começa a surgir um espírito coletivo de que o Estado não é o grande detentor do indivíduo e a família não é mais o grande espaço de realização individual. Ele passa a ver a unidade básica de vida nele próprio, passando a enxergar a vida como uma espécie de aventura em busca da realização”, explica.
Tal mudança de concepção teria dado mais força às necessidades individuais, que passa a não prezar tanto pela estabilidade, mas sim pela felicidade, sem se preocupar com as conseqüências. “De um lado você tem uma falta de crença individual nas grandes estruturas da sociedade. De outro, a apologia da busca do ideal imaginado. Um indivíduo roubando gravata ou um arrastando uma criança pendurada do lado de fora do automóvel é a realização, a concretização da máxima ‘eu quero, portanto eu faço’”, diz.
Para o especialista, a própria sociedade difunde a idéia de que a felicidade é conseguida na quebra das barreiras do certo e do errado. “O indivíduo, seguindo as regras sociais vai viver uma vida segura. Vamos tomar um exemplo simples como o antigo seriado do Batmam, da década de 60 e 70. Ele e seu ajudante são os caras certinhos, que geralmente não aparecem felizes. Felizes são os vilões que, mesmo quando perdem, estão dando risada. Isso não deixa de provocar uma associação inconsciente”, opina.