Numa pequena cidade mineira, fui comprar jornal. Como o preço era R$ 1,80, dei R$ 2,00, peguei o jornal e fiquei esperando o troco. O jornaleiro reacendeu o cigarro de palha, tirou algumas baforadas e disse:
- Não tenho troco, seu moço.
- O senhor não tem uma moeda de R$ 0,20?
- Ninguém tem, uai! As que aparecem, o povo enfurna. Vai pro fundo da gaveta ou pro cofre do porquinho. E nós, comerciantes, ficamos na mão.
- A Defesa do Consumidor diz que devemos exigir o troco.
- Eles deviam exigir é mais empenho da Casa da Moeda, isso sim. Ou educar o povo para não enfurnar as moedas... Com que cara vou aparecer no banco todo dia para trocar R$ 10,00 por moedinhas? E se todos os comerciantes fizerem o mesmo? O gerente vai ter de arrumar um trenzão dum cofre só para as moedinhas...
- Em São Paulo eles dão balas.
- Conheço a velha história: quem não dá trocado, leva bala... Só que aqui é diferente... Como irei vender jornal para um dentista, meu freguez, que vive a dizer que bala dá cárie?... Podia dar uma lasca de fumo de corda... Mas iriam dizer que estou incentivando o vício, não é mesmo? Então prefiro que os clientes façam uma reserva de crédito.
- Como funciona?
- De cada 10 jornais, um é grátis, uai!
- E como o senhor controla?
- Na confiança. O senhor não confia em seus amigos? Então! Agora... quem não confia, está mal de amigos, não é mesmo?
- E os vereadores daqui são bons?
- Acho que todos são bons... cada um a seu jeito... de outra forma não seriam eleitos, uai!
- Mas o senhor deve ter algum preferido.
- Não tenho. Sou fã de todos, quando acertam e procuro entendê-los, quando erram, uai!
- Eles erram muito?
- Quem não erra? O próprio São Pedro negou Jesus... A previsão do tempo... a falta de moedinhas... o pênalti perdido, uai! Todo mundo erra... Basta estar respirando pra gente errar, não é mesmo?
Contada por Rui Bertoti