10 de julho de 2026
Política

De volta à Câmara, irmão do PC tem empresa na lista do trabalho escravo

Por Alceu Luis Castilho | Correspondente do JC em Brasília
| Tempo de leitura: 2 min

Desde 2002, Augusto Farias não é mais suspeito pela morte do irmão Paulo César Farias, o pivô do impeachment de Fernando Collor, dez anos antes. No ano seguinte, porém, uma força-tarefa do Ministério do Trabalho e Emprego flagrou a exploração de mão-de-obra escrava na fazenda Santa Ana, no Pará, de propriedade de sua família. Ele e a irmã Eleuza chegaram a ficar presos.

Augusto é o mais novo deputado federal brasileiro. Assumiu após a morte do deputado Gerônimo da Adefal (PFL-AL). Com ele multiplicam-se no Congresso os personagens da chamada República de Alagoas – como o próprio ex-presidente Collor (PTB), eleito para o Senado, e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB).

A última “lista suja” do trabalho escravo, atualizada pelo MTE em fevereiro, tem 166 empregadores – que não podem fazer financiamentos e empréstimos bancários. A Santa Ana Agropecuária Industrial S/A, fundada em 1975, é a de número 147. A empresa administra a Fazenda Santa Ana, em Cumaru do Norte – terra paraense marcada pela exploração de mão-de-obra ilegal.

A força-tarefa em 2003 que levou à prisão de Augusto e Eleuza Farias flagrou 118 trabalhadores em condições análogas à de trabalho escravo. Eles disseram na época que a propriedade era de Eleuza, mas quem administrava era Augusto. Trabalhavam sem carteira-assinada e eram obrigados a contrair dívidas na compra de alimentos – prática que vem sendo mostrada na minissérie Amazônia, da Rede Globo, ambientada no início do século 20.

A lista atualizada do Ministério do Trabalho mostra que a última inclusão da Fazenda Santa Ana no cadastro foi feita em dezembro de 2004 – após uma blitz que identificou 99 trabalhadores escravos. Em 2003, eles também eram obrigados a fazer desmatamento ilegal nas reservas florestais da fazenda.

Outros três deputados federais já estiveram na “lista suja” do trabalho escravo, diretamente ou por meio de suas empresas, mas tiveram seus nomes retirados por decisões judiciais. São eles Inocêncio de Oliveira (PFL-PE), Beto Mansur (PP-SP) e Leonardo Picciani (PMDB-RJ) – este último presidente da Comissão de Constituição e Justiça, a mais importante da Câmara.

O falecido Gerônimo da Adefal, portador de deficiência, fazia parte da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. É bem possível, portanto, que Farias ocupe o seu lugar. Em outras legislaturas ele ocupou as Comissões de Agricultura e a de Constituição e Justiça.

A reportagem ligou para o gabinete do deputado, que volta à Câmara após quatro anos, mas ninguém atendeu.