10 de julho de 2026
Cultura

Leônidas, os 300 espartanos e o filme de Zack Snyder

Por Cristina Rodrigues Franciscato | Especial para o JC Cultura
| Tempo de leitura: 5 min

O filme “300”, de Zack Snyder, em cartaz nos cinemas de Bauru, não pretende ser fiel à história da guerra grego-pérsica, no início do século 5 a.C.. Retrata a homônima graphic novel de Frank Miller, autor também de “Sin City”, outra obra que virou filme em 2005, co-dirigida por Miller e Robert Rodriguez. Mesmo sem pretensão à historicidade, “300” é uma bela referência ao rei Leônidas e seus 300 espartanos.

O contexto é a batalha das Termópilas em 480 a.C.. Termópilas (thermopýlai em grego) significa, literalmente, “portas quentes”. Trata-se de uma estreita passagem entre as regiões da Tessália e de Lócris, na Grécia central. Na proximidade havia fontes termais. É ponto estratégico de acesso ao restante da Grécia e foi neste local que o rei espartano posicionou seu exército.

Gregos e persas

Desde o final da Idade do Bronze (por volta de 1.100 a.C.) a costa da Ásia Menor (atual Turquia) era colonizada pelos gregos, assim como as ilhas do mar Egeu e outras localidades do Mediterrâneo. O império persa formou-se a partir do local onde hoje é o Irã e chegou a englobar, do Mar Negro às margens do Mar Vermelho, a antiga Mesopotâmia, a Anatólia, a costa sírio-palestiniana e o Egito. Os persas dominaram também, no século 6 a.C., as cidades gregas da Ásia Menor.

Em 498 a.C. Mileto rebela-se contra o poder de Dario, o então rei persa, e pede ajuda a Atenas, que lhe envia tropas. O esforço é vão. Os Persas não apenas tomam e aniquilam Mileto em 494, como voltam os olhares para o continente grego.

Duas grandes campanhas foram empreendidas contra a Grécia. A primeira em 490 a.C., sob o comando de Dario. Seu exército perdeu para os gregos, liderados pelos atenienses, na batalha de Maratona. Dez anos mais tarde, em 480 a.C., Xerxes, filho de Dario, faz uma segunda e mais poderosa campanha militar contra os gregos. É no começo dessa campanha que entra Leônidas e os espartanos.

A “História” de Heródoto (484-420 a.C.) é nossa principal fonte sobre a guerra grego-pérsica. Segundo ele, 4 mil gregos lutaram bravamente nas Termópilas contra 3 milhões de Persas (VII, 228). Conta o historiador que Leônidas descendia de Héracles. Ele e seus homens resistiram por dois dias no desfiladeiro, antes de serem traídos por Efialtes, um grego da região que buscou os favores do grande rei (sua história no filme é ficção). Efialtes ensinou a Xerxes um atalho para contornar as Termópilas.

Com a iminente destruição, muitos dos aliados recuaram e, depois, o próprio Leônidas decidira dispensar a maior parte deles, restando apenas os trezentos e alguns outros que lutaram até a morte. Heródoto transcreve (VII, 220) palavras do oráculo de Delfos aos espartanos: ou Esparta seria completamente destruída ou perderia um rei descendente de Héracles. Heródoto acredita que a decisão de Leônidas de liberar os aliados, já que naquelas circunstâncias a vitória seria impossível, fora inspirada nesse vaticínio e em seu desejo de proporcionar glória aos 300 guerreiros.

O fato é que Leônidas consegue atrasar o exército persa, possibilitando aos gregos se reorganizarem. Eles vencem o inimigo na batalha naval de Salamina (480 a.C.), fazendo Xerxes e a frota persa abandonarem a Grécia. Ésquilo escreve, em 472 a.C., uma bela tragédia sobre o episódio: “Os Persas”. Um contingente de guerreiros permanece ainda por um ano em solo grego, sob a chefia de Mardônio. Os persas foram definitivamente derrotados em Platéias (479 a. C.) por aliados gregos sob o comando de Pausânias, general espartano.

Voltemos ao filme. Em “300”, os éforos são fantasiosos: velhos, carcomidos, licenciosos e corruptos. Eram, na verdade, cinco cidadãos eleitos anualmente pela Assembléia e que tinham a função de controlar a atividade dos reis ou de gerir a cidade quando a guerra dela afastava seus chefes. Por que Leônidas teria levado apenas 300 guerreiros e não a massa do exército espartano? É possível ter ocorrido divergências entre Leônidas e os éforos, especialmente no que diz respeito às Carneias, festas religiosas dedicadas ao deus Apolo, que se realizavam nesta época. Segundo Heródoto, o grosso da tropa deveria pôr-se em marcha rapidamente ao término das festividades sagradas (VII, 206).

Em “300”, a caracterização de Esparta é próxima à realidade. Ao nascer, a criança espartana era submetida a um exame para definir se estaria apta a viver. Se apresentasse qualquer deficiência física seria abandonada e, segundo alguns, lançada do monte Taigetos. Os meninos viviam com a mãe apenas durante a primeira infância. Depois, passavam por rigoroso treinamento coletivo e por difíceis rituais individuais, até serem aceitos como cidadãos e guerreiros. A mulher espartana era mais livre do que as outras gregas. Enquanto a ateniense, por exemplo, deveria permanecer quase todo o tempo dentro de casa, a espartana era incentivada a exercitar-se ao ar livre.

A esposa de Leônidas chamava-se Gorgo e era filha do rei anterior de Esparta, Cleômenes. Era inteligente, participativa e corajosa, embora suas ações no filme não correspondam à realidade. Conta Heródoto que, ainda menina, Gorgo aconselhara o pai para não dar ouvidos a um emissário de Mileto que viera solicitar ajuda para a revolta jônica contra os persas (V, 51). Também, segundo ele, quando Xerxes resolveu invadir a Grécia, um grego infiltrado entre os persas quis avisar os espartanos. Temendo que a mensagem fosse interceptada, gravou a informação numa placa de madeira e a cobriu de cera, enviando-a para Esparta. Ninguém compreendera a razão daquela placa em branco. Apenas Gorgo decifrou o ardil e ordenou que a cera fosse raspada. Foi assim que descobriram a mensagem e a enviaram aos outros gregos (VII, 239).

Duas sentenças célebres se destacam no filme. A primeira é sobre o “combater na sombra”, que revela a têmpera corajosa dos guerreiros espartanos. A frase é de um deles, Dieneces, pouco antes de enfrentar os persas. Um aliado lhe contara que quando os bárbaros disparavam os arcos, o sol ficava oculto pela enorme quantidade de flechas lançadas. Excelente tal informação pareceu a Dieneces, pois assim combateriam à sombra (Heródoto, VII, 226).

Ao se despedir de Leônidas, Gorgo exorta-o a voltar “com o escudo ou sobre ele”. Era assim que mães espartanas despediam-se dos filhos quando partiam para a guerra. Não surpreende, portanto, a extraordinária e heróica bravura dos guerreiros de Leônidas. O filme de Zack Snyder soube representá-la muito bem.