09 de julho de 2026
Cultura

Jim Carrey se rende ao suspense

Por Da Redação | Com Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Uma piada recorrente entre jornalistas que utilizam estatísticas em seus textos diz que os números, quando bem torturados, dizem qualquer coisa. Premissa equivalente é o ponto de partida do thriller neo-noir “O Número 23”, que estréia hoje no Cine’N Fun do Alameda Quality Center.

Para prazer dos espectadores numerólogos, os créditos de abertura vêm recheados de referências a acontecimentos históricos, como as datas de nascimento e de morte de Shakespeare (23 de abril) e o 11 de Setembro (11+9+2+0+0+1=23). Apoiado na crença de que o número 23 é portador de maus presságios, outras tantos referências abundarão ao longo da história, como I Ching (número 23), a Bíblia (Salmo 23) e até o escritor William S. Burroughs (que teria contado histórias obscuras em que o número está presente).

O problema desse tipo de jogo, porém, é o mesmo com que se depara o filme de Joel Schumacher (de “O Fantasma da Ópera”, “Por um Fio” e “Batman & Robin”): que fazer com tantos possíveis significados? Escrita pelo novato Fernley Phillips, um dos admiradores confessos desse delírio numérico, a trama mostra a vida de Walter Sparrow (Jim Carrey, em versão sorumbática), cuja obsessão por um misterioso livro (chamado também “O Número 23”) torna-se perigosa.

Refém do suposto código determinista, o pacato Sparrow tem sua vida virada ao avesso a partir do encontro com um cachorrão que escapa de seu controle e o faz atrasar um encontro. O efeito dramático seguinte o levará a descobrir, largado na estante de uma livraria, um volume intitulado “O Número 23”.

Ele passa a acreditar que é o protagonista da publicação (um detetive grosseiro), já que possuem as mesmas recordações de infância. Como o personagem é um assassino, Sparrow passa a ser uma ameaça para todos que o cercam. O livro também torna os protagonistas obcecados pelo número 23, que é explicado à exaustão. De forma simplificada, é preciso somar datas ou letras, seguindo a numerologia, de desastres históricos até chegar a estes dois algarismos.

Numa situação semelhante a “Mais Estranho que a Ficção”, o personagem passa a ter seu destino guiado pela história narrada no tal livro, lotado de associações com o número 23. Como se não bastasse desenvolver um enigma estimulante o suficiente para fazer divertir e amedrontar com a deriva em que lança o personagem, o roteiro inventa uma duplicidade, transformando Sparrow numa versão pós-modernosa de detetive, com direito a “femme fatales” e outros clichês do gênero.

Porém, quando entra na contramão de suas referências, “O Número 23” perde o interesse. Enquanto o noir se abastecia do acúmulo de pistas falsas, de mutações radicais na moral dos personagens e em deixar insolúveis as investigações de onde partia, dissipadas por muitas outras que surgiam no caminho, “O Numero 23” avança até o limite do enigma para em seguida entregar ao espectador sua solução em minúcias, recorrendo à fórmula da reviravolta abrupta que explica tudo.

A fotografia escura e a trilha sonora um tanto sem graça também não colaboram para uma opinião mais positiva do filme. Na somatória de equívocos, não sobra muito para cativar o espectador. A impressão é que pagamos para entrar num trem fantasma e fomos parar num inofensivo carrossel.