08 de julho de 2026
Bairros

Os novos missionários

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Avenida Rodrigues Alves, Centro de Bauru. Todo final de tarde, enquanto milhares de trabalhadores voltam para casa depois de mais um dia cansativo, duas senhoras aparentando 30 anos de idade tentam, inutilmente, abordar as pessoas que estão no ponto de ônibus. Insistentes, elas deixam pequenos papéis contendo mensagens escritas a lápis. “É o endereço de nossa igreja”, dizem, antes de irem em busca de novos fiéis.

Pouco importa para elas que, logo em seguida, as pessoas amassem os papéis e os atirem no chão, sem ler o que está escrito. A parte delas foi feita. O importante, para as duas, é levar a mensagem de salvação a todos, e isso elas fazem com perseverança. Muitos poderiam imaginar que exemplos como esse, de persistência e fé, podem estar se tornando cada vez mais raros numa época individualista como a atual.

Essa idéia, porém, pode ser enganosa. Em Bauru, exemplos que provam o contrário podem ser encontrados aos montes. Relativamente pouco difundida entre os ocidentais, a Igreja Tenrikyo costuma ser vista pela maioria das pessoas como um belo ponto turístico do município, e nada mais.

Muitos não sabem, todavia, que a religião surgida na cidade japonesa de Tenri, no Japão, conta atualmente com mais de 100 missionários vivendo na cidade. São pessoas que deixaram lar, família e emprego para se dedicar exclusivamente à transmissão de uma mensagem de fé ao restante do mundo.

Gente vinda inclusive de outros países, como é caso do reverendo Yuji Murata, um japonês que vive no Brasil desde 1993, onde se dedica a pregar a “Verdade Divina” revelada pelo Deus-Parens aos homens.

Exemplos semelhantes de ardor missionário podem ser encontrados em diferentes denominações religiosas espalhadas pela cidade. Caso clássico é o dos religiosos católicos que tentam aproximar as pessoas carentes da mensagem do Evangelho através de projetos sociais. Os Irmãos do Sagrado Coração, por exemplo, mantém um programa educacional que atende cerca de 100 crianças no Núcleo José Regino (zona leste de Bauru).

À frente das paróquias, os frades também se destacam no trabalho de “evangelização social”. Projetos de geração de renda e de distribuição de alimentos, implementados pelo frei Ernani Pereira Marinho na paróquia de São Paulo Apóstolo, atendem hoje centenas de famílias carentes da zona norte de Bauru.

Missionários evangélicos também apelam para o social na tentativa de difundir as mensagens de salvação. Por meio das histórias da Bíblia, Ismael de Jesus da Silva, 49 anos, tenta infundir valores éticos e cristãos nos alunos das escolas estaduais de Bauru.

Mas, para atingir seus objetivos, alguns missionários têm de enfrentar inúmeras barreiras impostas pelo mundo. A pressa das pessoas costuma ser a pior inimiga dos pregadores de rua Varme de Oliveira e Paulo Roberto Narciso. Enquanto os dois anunciam a Palavra de Deus na praça Rui Barbosa, poucos param para ouvi-los. Mesmo assim, os dois não desistem e seguem em frente. São homens de fé.

Movido por sentimento semelhante, Alexandre Manoel da Costa resolveu encarar seu maior desafio como missionário. Há cerca de quatro anos, ele aceitou deixar Governador Valadares (MG), para tentar difundir os preceitos luteranos em Bauru, uma cidade cuja religiosidade é marcada por um forte misticismo, segundo as palavras do próprio pastor.

Em alguns casos, os missionários levam sua dedicação ao extremo. Os membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, os mórmons, aproveitam todos os dias, horas e minutos de suas vidas à pregação da fé. Os jovens costumam ser instruídos desde cedo a se tornarem pregadores. Durante um período que dura dois anos, em média, eles saem pelo mundo pescando almas e semeando as palavras de salvação. Iniciativa mais que frutífera, por sinal. Graças ao trabalho missionário, os mórmons são, atualmente, um dos grupos religiosos que mais crescem no País.

Em 2000, eles eram cerca de 199 mil no Brasil. Atualmente já são quase 1 milhão, segundo dados do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris), sediado no Rio de Janeiro e ligado à Arquidiocese do Rio de Janeiro. O crescimento registrado pelo grupo, nos últimos seis anos, foi de 460%.