09 de julho de 2026
Nacional

Novo exame diagnostica a intolerância à lactose

Por Constança Tatsch | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

O Hospital das Clínicas de São Paulo está realizando um novo exame que facilita a vida de quem tem intolerância à lactose. Os métodos de diagnóstico que existem hoje, além de demorarem horas, são desagradáveis para os pacientes. A intolerância à lactose é muito comum: chega a atingir 70% da população ocidental após os 40 anos.

O problema ocorre porque o intestino delgado não produz - ou produz menos- a enzima lactase, que existe para quebrar o açúcar do leite (lactose). O sintomas são diarréia, inchaço, dor abdominal e flatulência. Não vale confundir o problema com a alergia à lactose, que é uma reação imunológica.

“É muito comum não associar os sintomas com a lactose. As pessoas acham que comeram demais ou que a comida estava ruim’’, diz Fabrício de Almeida Dominguez, gastroenterologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O tratamento é a mudança na dieta. Cada paciente tem um limite de tolerância que tanto pode ser de dois copos de leite por dia quanto não suportar nenhum alimento derivado do leite ou que use o ingrediente em sua preparação. Até requeijão, sorvetes, bolo e biscoito podem ter que ser proibidos. Descobrindo esse limite, o jeito é se adaptar a ele.

Existem no mercado vários produtos especiais para pessoas com intolerância à lactose. De leite com baixo teor de lactose a ovos de chocolate com ingredientes 100% vegetais. Cápsulas com a enzima lactase também podem ser importadas e tomadas nas refeições que incluam leite.

“Hoje é muito fácil conviver com a intolerância. Tem vários produtos que facilitam a vida. Isso também não quer dizer que não se pode ingerir nada com lactose. O paciente tem que ver o que tolera’’, afirma o gastroenterologista Flávio Steinwurz, do Hospital Albert Einstein.

Um aspecto fundamental é que quem tem o problema precisa repor cálcio. Primeiro porque as freqüentes diarréias impedem que o organismo absorva os nutrientes. Segundo para compensar a dieta. Essa reposição pode ser feita por suplementos ou com uma alimentação rica em folhas verdes, como couve, rúcula e espinafre.

O exame de biologia molecular que está sendo feito no HC já avaliou 140 pessoas desde o ano passado. Pode ser feito por qualquer paciente do SUS, uma vez que ainda não está disponível em laboratórios privados. O paciente retira um pouco de sangue. Seu DNA é estudado para ver se há mutação em relação à produção da enzima. Em cinco dias sai o resultado.

Antes, dois exames eram responsáveis pelo diagnóstico. O mais antigo avaliava a glicemia no sangue - se a lactose é quebrada normalmente vira glicose. O outro media a quantidade de hidrogênio no pulmão - quando a lactose vai para o intestino grosso fermenta e hidrogênio é liberado por bactérias.

Ambos são demorados, exigem jejum e são feitos após a ingestão de uma solução de lactose, causando mal-estar a quem tem a intolerância. “O exame genético é mais rápido e dispensa jejum. O paciente também não passa pelo desafio de tomar lactose e ter os sintomas’’, diz Rejane Mattar, responsável pelo laboratório da gastroenterologia do HC.

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Mutação genética

Tomar leite parece algo inerente à humanidade. Mas, segundo médicos, só as crianças estão verdadeiramente preparadas para isso. Segundo Rejane Mattar, médica responsável pelo laboratório da gastroenterologia do Hospital das Clínicas, quem tolera leite na idade adulta sofreu uma mutação genética, ou seja, o “normal’’ seria que todas as pessoas fossem intolerantes ao leite após a infância.

“Os mamíferos foram feitos para tomar leite só quando são filhotes. A humanidade sofreu uma mutação’’, explica Mattar. “O ser humano nasce para ingerir leite até os 2 anos de vida’’, ressalta Fabrício de Almeida Dominguez, gastroenterologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A partir dessa idade, a produção da enzima começa a cair.

Existem três tipos de intolerância à lactose. A mais comum acontece depois de uma certa idade, que pode ser desde a infância até velhice, e a pessoa passa a não suportar a lactose. A mais rara e grave é a congênita, quando o bebê nasce sem tolerar nem o leite materno. É marcada por diarréia forte logo nos primeiros dias de vida. A temporária ocorre após infecções intestinais. A membrana do intestino fica tão machucada que as células - responsáveis pela produção da lactase - são afetadas. Costumam durar até duas semanas.