08 de julho de 2026
Ser

Minha história: Os desígnios de Deus


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Em 1969 ocupava eu um cargo de provimento efetivo junto à Delegacia de Saúde de Bauru. Visando ao aperfeiçoamento de funcionários públicos que ocupariam futuramente cargos de chefia e de direção, o governo estadual alocou recursos para convênio com a Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (Capital). Munido de currículo e com a aquiescência do doutor Wilson Pedro Speridião (delegado de Saúde), submeti-me à entrevista com o capitão Osvaldo de Sordi, diretor da divisão de transportes do departamento de administração da Secretaria da Saúde (Capital).

O capitão aprovou minha indicação, mas havia um óbice. Somente funcionários residentes na Capital poderiam ser convocados para o curso. Manifestando profundo interesse, pois já me conhecia profissionalmente, o capitão entrou em contato telefônico com o doutor Walter Sidney Pereira Leser (secretário da Saúde) e o beneplácito foi concedido. Com a ressalva, porém, que não haveria ajuda de custos. As despesas pessoais seriam por minha conta.

Diante do impasse, um colega de curso, João Guimarães (chefe da garagem da Divisão de Transportes) ofereceu-me uma cama e chuveiro no dormitório dos motoristas e me levava junto com ele, de carro oficial, para o curso (manhã e tarde). Outro colega de curso, Floriano Zuchini (chefe da garagem da Coordenadoria de Saúde Mental) me levava com ele, em carro oficial, para almoço no refeitório do Hospital de Vila Mariana. Consegui fazer o tão almejado curso. Fui designado chefe de seção da administração de subfrota da Divisão Regional de Saúde de Bauru.

Assumi uma eterna dívida de gratidão para com todas as pessoas elencadas acima. Por certo o dedo de Deus estava por detrás de todos os benefícios recebidos. Num dia de canícula e com o sol a pino, em 1971, quando o semáforo da esquina acendeu a luz vermelha, parei meu carro em frente ao Hospital de Base, no sentido Centro-Altos da Cidade. Descendo as escadarias do hospital vinha um homem de 40 e poucos anos, alto, epiderme da cor de ébano, corpo atlético. Nos seus fortes braços trazia uma jovem de uns 10 anos, desfalecida.

O homem foi descendo a rua Monsenhor Claro, rumo ao Centro. Pelos trajes era uma pessoa humilde, sem posses. O sinal verde me compeliu a acelerar o carro. A cena patética me comovera. Achei que deveria retribuir tudo que Deus me dera. Fui localizar o homem, ainda com a moça nos braços, na rua Quinze de novembro. Ofereci qualquer tipo de ajuda, mas ele recusou. Quis então pelo menos levá-lo até sua residência. Ele recusou. De seus olhos brotavam lágrimas que ele não podia enxugar naquele momento. Foi se distanciando, cabisbaixo. Senti-me impotente. Jamais entendi porque Deus não permitiu que ajudasse aquela criatura com a jovem desfalecida nos braços...

Gilberto Sidney Vieira