08 de julho de 2026
Articulistas

O beijo


| Tempo de leitura: 4 min

Fiquei sabendo que existe o Dia do Beijo, assim como a Sexta-feira 13 de tantas superstições. Ambas as datas motivam muitas e prosaicas matérias jornalísticas. A Imprensa segue o calendário de eventos, maneira de inspirar repórteres e cronistas sem nenhuma inspiração. Na roça também é mais ou menos assim: dia de lua-cheia é bom para pescar; dia de São José para plantar milho; agosto é bom para caçar Saci, e por aí vai. Vi na TV um médico dizendo que o beijo, além das condicionantes libertadoras da libido ainda previne de doenças. Freud diagnosticaria que o beijo nada mais é que a manifestação de um retardo da fase oral. Época em que o bebê adora chupeta e de pôr tudo quanto é porcaria que encontra, na boca. Há muitos ainda nessa fase, com culminâncias fálicas, mas nada disso é pecaminoso. Questão de preferência. Normal. Meu amigo, professor de Microbiologia, dr. Lázaro Valeriani Marques, tem explicações para tudo. Ele vivia criticando o hábito dos bares de mergulhar xícaras de café em água borbulhante, como se com isso tivesse garantindo uma completa assepsia aos fregueses. “Bobagem”, me dizia. “Só estão dando banho nas bactérias e permitindo ainda temperaturas ideais para maior proliferação”. Não o consultei sobre o beijo. Gostaria de saber se ele confirma o médico da TV. Um estomatologista. A boca, dizia, é porta de entrada e saída de várias enfermidades. E, justamente por causa desse contato direto com a saliva de estranhos, onde nadam milhões de microorganismos, somos estimulados à formação de anticorpos. Isso aumenta a resistência das pessoas à doenças. Não sei se essa prática ajuda também a combater as cáries. Lembro-me que a Faculdade de Odontologia de Bauru, onde o sr. Lázaro aposentou-se, realizou pesquisas de ponta com o flúor, a substância mais poderosa para evitar o surgimento de cáries. A notícia se espalhou e começaram a abusar do flúor, como tanta gente que se torna oralmente atrevida, por causas que Freud explica. Virou moda as prefeituras meterem flúor na água. Havia prefeitos que se vangloriavam de pôr mais flúor que as outras cidades. Como se reivindicassem um troféu. Era flúor no leite, em pílulas, em aplicações tópicas. Os pesquisadores da FOB tiveram o trabalho de sair explicando que a aplicação do produto de forma exagerada pode causar fluorose dental. A fluorose deixa os dentes porosos, quebradiços e eles ficam meio amarronzados.

No meu tempo de juventude, beijar a namorada no cinema dava expulsão da sala por atentado ao pudor. O guardinha aparecia brandindo sua espada de Miguel Arcanjo improvisado para expulsar do Éden a dupla que se beijava. Dia desses vi um beijo guei num barzinho da cidade. Pensei no guardinha do cinema de Marília, odiado por todos. “Tá vendo, seu atrasado...” Infelizmente ainda existem aqueles que se acham no direito de impedir manifestações de amor entre pessoas do mesmo sexo, sob porradas e até tiro de revólver. Matar pode; beijar, não.

Coitado do Rodin, que era muito lascivo e fez uma escultura denominada “O Beijo” – aliás, muito bem dado – e teve que escondê-la durante toda a vida porque não havia lugar onde exibir a sua obra-prima. No mundo ainda pesam vários fardos sobre o sexo. E até a Ciência, que chega sempre depois da Arte, já confirmou que sexo não pode ser dividido entre masculino e feminino. Na ficha do hotel existem dois campos a serem preenchidos: “masculino”, “feminino”. Será que não basta o número do cartão de crédito?

Bicha e corno são faces da mesma moeda de larga circulação entre os repressores. Até a lua, na fase minguante, pelo seu aspecto paga o pato. Criaram a expressão “cornos da lua”. Como sinônimo de marido traído, corno remonta a certas sutilezas da sociedade patriarcal. O marido era o chefe da família e não podia ser feito de bobo, muito menos pela mulher, que deveria zelar pela sua honra. Esta, quando ultrajada, deveria ser lavada com sangue, costume que ainda vigora entre aqueles que utilizam o sangue como detergente.

O Dia do Beijo foi uma grande idéia. Cabe aos comerciantes criativos faturar em cima desse evento, mesmo aqueles que não fabricam balas Pepper, que a gente usava para disfarçar o bafo.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC