08 de julho de 2026
Nacional

Acúmulo de funções gera esquecimento

Por Valéria França e Rodrigo Brancatelli | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

São Paulo - Esquecer faz parte do cotidiano. Esquecer de tirar dinheiro para pagar a empregada, da consulta do dentista ou ainda de levar a roupa à lavanderia são coisas que acontecem. Tudo é possível até mesmo o que parece inadmissível: esquecer do próprio filho. “Escuto muitas histórias, inclusive de pais que esquecem de buscar o filho e aparecem com uma hora de atraso na porta da escola”, diz a psicanalista Dorli Kamkhagi.

Dificilmente os desfechos são tão trágicos como o de Gustavo de Oliveira Garcia, de 1 ano e 4 meses, que morreu anteontem depois de ficar preso no carro por um lapso do pai, o biólogo Ricardo César Garcia, de 31 anos, chamado até de “assassino” pela vizinhança. Não é bem assim. Para especialistas, qualquer um está sujeito a um esquecimento deste porte.

“As pessoas ficam sobrecarregadas de tantas funções que acumulam”, diz Marilda Lipp, psicóloga do Centro de Controle do Stress de São Paulo. Os primeiros alertas de stress, como insônia e irritação são ignorados. “Falhas de memória e até mesmo confusão mental surgem quando as pais ultrapassam seus limites”, diz Marilda.

“Esqueci minha filha dentro do carro no estacionamento de um supermercado e fiquei semanas me achando a pior mãe do mundo”, diz a dona de casa Marília Pilla Nogueira. Nas férias escolares, mãe e filha foram ao shopping. No caminho de volta, a pequena adormeceu no banco de trás do carro e a mãe resolveu passar no supermercado. Marília estacionou o carro e entrou para fazer compras. “Peguei uma cestinha, comprei frutas, xampu e fui para o corredor das bolachas. Daí ouvi o auto-falante: ‘ proprietário do Celta preto favor procurar a gerência. Sua filha está chorando dentro do veículo.”

“A quebra da rotina e o trabalho excessivo podem causar lapsos de memória, como se vivesse no piloto automático”, diz a psicóloga Sílvia Carmello, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “O homem é um ser facilmente condicionável, assim faz melhor as coisas que está acostumado”", diz o psiquiatra Jorge César Figueiredo. “Ele se atrapalha ao alterar a rotina.” A psicóloga Marilda aconselha aos pais prestarem atenção aos primeiros sinais de esquecimento: “Tire umas férias e trabalhe menos. É melhor do que esperar que coisas mais graves aconteçam.”