08 de julho de 2026
Nacional

Garota baleada acha que volta a andar

Por Marianne Piemonte | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

São Paulo - Com a unha feita, esmaltada com um lilás claro, cabelo escovado e brilho nos lábios, Priscila Aprígio da Silva, 13, estava pronta às 10h de ontem para receber alta do Hospital Alvorada, onde estava internada desde 15 de março.

A menina que ficou paraplégica depois de ter sido atingida por uma bala perdida, durante um tiroteio em Moema (zona sul de São Paulo), em 28 de fevereiro, diz que pretende voltar a andar em seis meses. “Os médicos me falaram que essa avaliação é difícil, mas vejo meus dedos do pé mexerem e tenho muita fé em Deus”, disse a garota, que é fiel à Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Acompanhada pelo pais, o sapateiro desempregado Isaias Joaquim da Silva, 40, e a doméstica Maria da Fátima Aprígio, 47, ela seguiu para o flat na Vila Mariana onde irá morar até que sua casa no Embu (Grande São Paulo) esteja adaptada.

Apesar da proximidade com a Divisão de Medicina para Reabilitação do Hospital das Clínicas, onde fará sete horas diárias de fisioterapia e tratamentos (incluindo consultas com nutricionistas e psicólogos), Priscila começou a demonstrar os primeiros sinais de irritabilidade. “Não tenho nada para fazer aqui. Em pleno domingo, estou olhando para o teto. Não passa nada bom na televisão e não tem internet no flat.”

Ela conta que as amigas não conseguiram visitá-la por causa da distância. Atualmente, sua única distração é um i-Pod com que uma desconhecida a presenteou. Nem os oito quilos a menos a fazem rir. “Emagreci porque não conseguia comer deitada.” E o que ela gostaria de fazer ontem? “Voltar para o hospital”, responde. Lá, ela conta que as enfermeiras brincavam de salão de beleza com ela, a colocavam para atender o telefone do posto de enfermagem, fora os “rachas” de cadeira de rodas que disputava com os seguranças.

“Aqui, mal tem espaço para a minha mãe”, diz, enquanto aponta para o colchão posto em pé, ao lado do guarda-roupas de duas portas.

“Foi tanto mimo que ela acostumou, agora está duro agüentar essa menina”, desabafa a mãe, atualmente desempregada. “Pior é que nem dinheiro para levá-la para distrair no shopping nós temos, porque estamos vivendo de ajuda”, disse.