09 de julho de 2026
Nacional

Lobão vai além dos hits em ‘Acústico’

Por Ivan Finotti | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Vinte e cinco anos de declarações tipo “eu sou mais eu” (e denúncias contra o jabá), oito anos de brigas com gravadoras (em especial sua ex, a antiga BMG), três CDs lançados em bancas de jornais (e numerados, para espezinhar a indústria) e, agora, uma toalha no meio do ringue. Após tachar de decadentes alguns de seus colegas músicos que aceitavam fazer discos acústicos caça-níqueis, aqui está ele lançando o seu.

Mas, como Lobão respondeu na mesma reportagem, “pô, o que eu posso fazer se o nível melhorou?”. É verdade, e esse “Acústico MTV - Lobão”, além de provar isso, também faz lembrar daquela expressão popular dos bichinhos, aquela em que o lobo não vira cordeiro, só joga uma pele por cima para enganar os incautos. O homem já entra com os dentes à mostra. “Eu sou o tenebroso” é a primeira frase que Lobão cospe no CD, em “El Desdichado II”.

É uma grande canção de seu primeiro trabalho sem grandes gravadoras por trás, “A Vida É Doce”, de 1999. E já indica que esse acústico terá uma outra função além daquela “velhos sucessos reunidos”: vai atualizar a obra do cara para a grande maioria que não acompanhou sua viagem pelo universo paralelo da independência. O disco de 1999, por exemplo, comparece com três outras músicas e, nesse sentido, bate fácil qualquer um dos grandes sucessos de Lobão, como “Ronaldo Foi para a Guerra” (LP de 1984, com duas músicas: “Me Chama” e “Corações Psicodélicos”), “O Rock Errou” (de 1986, com duas: “Canos Silenciosos” e “Noite e Dia”) ou “Vida Bandida” (de 87, que aqui tem “Rádio Blá”).

O empolgante é que, com hits inesquecíveis para uma geração ou duas, Lobão não parece aqueles artistas chatos que insistem em tocar as últimas quando todo mundo quer ouvir as velhas. Não, ele é capaz de emocionar sem recorrer ao passado. “Vou Te Levar”, música dessa fase independente que passou longe das rádios, é uma das mais belas canções de amor perdido do rock brasileiro.

Frases do tipo: “Retratos estampados do nosso amor/ (...) Revelando pra sempre a gente/ Nosso orgulho um do outro, olhando pra lente/ Como quem dissesse: não queremos mais nada nesse mundo/ E que me lembrasse a cada instante/ Que valeu a pena cada lance/ E que valerá, tenha certeza/ Pra toda a vida...”

Seguem-se a emocionada “Quente” (de “Canções Dentro da Noite Escura”, 2005), uma leitura sambinha de “Por Tudo que For” (1988), “Noite e Dia” (1986) e, finalmente, aquela que ninguém consegue deixar de cantar junto, “Me Chama” (1984). E Lobão ainda canta “mágicas no absurdo” com tesão, pode ouvir. “Corações Psicodélicos”, outro grande sucesso do mesmo ano, com sua festa na floresta e tribos ateando som, recebe uma divertida versão debochada, quase bêbada.

Mas a gente sabe que é recurso estilístico, não etílico, porque o Lobão sempre foi da turma dos caretas... Tá bom, então. E tudo termina, enfim, em completa oposição ao “eu sou o tenebroso” lá de cima, com a canção “A Gente Vai se Amar” e os seus versos: “E depois da escuridão/ Haverá um lindo sol/ E a gente vai se amar/ E a gente vai se amar”. É o Lobão otimista, quem diria?