09 de julho de 2026
Articulistas

Fim do mundo


| Tempo de leitura: 3 min

“Será que realmente poderá a qualquer momento ser lançada uma bomba sobre Israel?”, pergunta-me um leitor, preocupado com as profecias apocalípticas que teriam respaldo bíblico. Pensei com os meus botões - quem sou eu para dar tal resposta? Ademais, não há mais profetas em Israel, e o próprio Oráculo de Delfos se ainda existisse teria, como sempre, dado dúbia resposta com referência ao projeto atômico iraniano. Mas podemos, sim, falar sobre outra bomba, esta já lançada e que explodiu com o intuito de arar a estrada, preparar o terreno para o pior. É a campanha que vem procedendo à demonização do Estado de Israel, ao levantar a dúvida sobre a legitimidade de o Povo Judeu ter o seu próprio país. Quem são os propagadores desta idéia? Estamos todos cansados de saber, que a insidiosa campanha terrorista e ideológica do islamismo extremista encontrou eco nas chamadas esquerdas, que gostosamente caíram nos braços de uma repugnante direita, resultando em um movimento anti-semita quase que universal, só equivalente ao que existia no período antecedente à Segunda Guerra Mundial.

O “Nobel” Saramago, ilustre escritor português, visitando os territórios palestinos há um par de anos, revelou seu ancestral e genético ódio aos judeus, expressando o pensamento anti-Israel de fossilizados comunistas. Recentemente, alguns bispos alemães, estando em Israel, visitaram o “Iad VaShem” – o Museu do Holocausto, em Jerusalém – e estiveram depois na cidade de Ramala. Ousaram fazer uma obscena comparação entre o Gueto de Varsóvia e o que eles denominaram de o Gueto de Ramala. Pasmem!

Ioshki Fisher, que foi Ministro do Exterior da Alemanha, manifestou dolorosamente sua decepção por não ter havido maior reação entre os alemães face àquela declaração. É certo que a Igreja pediu desculpas por escrito e a Chanceler alemã enfatizou que seu país estava ao lado de Israel, e que o direito de sua existência continuará a fazer parte da sua política externa. Um dedo acusador é apontado contra certos círculos acadêmicos de Israel, que têm manifestado, há tempos, suas dúvidas sobre o direito da existência de um país judeu e defendem a tese de um Estado multi ou binacional. Fazem coro com eles as seitas ortodoxas extremistas do tipo Naturei Carta, que negam o Estado Judeu.

Consideramos como legítimo o direito de crítica à política dos vários governos israelenses. Em Israel, o uso da palavra é livre, os meios de comunicação publicam as mais esdrúxulas opiniões. Recentemente, um grupo de árabe-israelenses lançou um manifesto, propondo o desvirtuamento do Estado de Israel, com a substituição de seus símbolos nacionais. E os deputados árabes do Parlamento israelense trafegam livremente pelos países árabes, não poucas vezes identificando-se publicamente com a política dos inimigos que ameaçam destruir Israel.

Alguns professores universitários israelenses judeus foram extremamente criticados por posições consideradas anti-sionistas e antiisraelenses. A despeito dos ataques que sofreram, as universidades lhes deram a sua proteção, baseando-se no princípio da liberdade de pensamento acadêmico. O impasse surgiu quando foi cruzada a linha do permissível, quando houve quem se dirigisse às universidades estrangeiras, convidando-as a boicotar as instituições acadêmicas de Israel.

Na Segunda Guerra Mundial ficou famoso um cidadão inglês, pró-nazista, que foi viver na Alemanha e, de lá, transmitia um programa radiofônico, atacando e desmoralizando a Inglaterra. Os ingleses, ironicamente, lhe deram o apelido de “Lorde Haw-Haw”. Havia também uma americana que fazia idêntico papel no Japão, no auge da guerra com os Estados Unidos, conhecida por “Rosa de Tóquio”. Ao terminar o conflito, o fajuto lorde foi enforcado pelos ingleses, por crime de traição. Não sei que destino teve aquela americana.

Israel está em guerra e sob ameaça de destruição física e moral. Fica no ar a pergunta - até que ponto é aceitável a crítica a certas políticas, e onde começa a traição? Até o fim do mundo? Ou já é o fim do mundo?

O autor, Marcos Wasserman, é advogado em Tel Aviv, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv