O tema não é novo e a abordagem tampouco. Mesmo assim, “Pequena Miss Sunshine” foi justamente indicado ao Oscar de melhor filme neste ano - é uma pequena jóia inteligente no universo das comédias do cinema independente americano, aquelas que fogem do riso histérico e das piadas escatológicas para mergulhar no drama – isso mesmo - dos personagens. O filme acaba de chegar às locadoras, em uma semana de grandes lançamentos em DVD.
Se o roteiro de “Miss Sunshine” não brilha exatamente pela grande originalidade, ele é perfeito ao deixar diretores e elenco à vontade para contar a história sensível e verossímil de uma família do Novo México que deixa de lado suas pendengas e questões mal resolvidas para investir no sonho da filha caçula, a adorável Olive (interpretada por Abigail Breslin, também indicada ao Oscar).
Na época de seu lançamento, muito foi dito sobre essa “família à beira de um ataque de nervos”. Bobagem. Os Hoover não estão à margem de um colapso nem o concurso que os coloca na estrada detona uma crise sem precedentes. Cada um na família tem seus problemas e, como todas as pessoas, vai lidando com eles conforme a vida permite.
Greg Kinnear (“Melhor É Impossível”) interpreta Richard, o patriarca palestrante motivacional fracassado que não deixa passar uma chance de emitir citações de psicologia barata sobre vencedores e perdedores. Ele é casado com Sheryl (Toni Collete, de “O Sexto Sentido” e “Em Seu Lugar”), o ponto de apoio que parece tentar desesperadamente que sua família dê certo, após um divórcio doloroso.
São dois filhos: o adolescente Dwayne (Paul Dano, de “Os Sopranos”), em voto de silêncio, seguidor da filosofia de Friedrich Nietzche e dono de ódio pela família, e a pequena Olive, que vem treinando para apresentar-se em um concurso de miss mirim. O elenco se completa com Frank (Steve Carell, de “O Virgem de 40 Anos”), estudioso gay irmão de Sheryl em recuperação após uma tentativa de suicídio, e o avô (Alan Arkin, vencedor do Oscar como ator coadjuvante), expulso de uma casa de retiro por seu vício em heroína.
Em seus primeiros 15 minutos, apresentações são feitas e os Hoover são informados de que Olive foi selecionada para o concurso Miss Sunshine. Sem dinheiro suficiente para passagens de avião e sem poder deixar Frank, o vovô ou Dwayne sozinhos, a solução é colocar toda a família dentro da Kombi amarela, partir para a Califórnia e realizar o sonho da adorável menina.
Se, a partir daí, há “gags” previsíveis para um road movie com uma família disfuncional dentro de uma Kombi, ganha destaque a naturalidade dos atores para incorporar seus papéis nada artificiais em situações que beiram, mas apenas beiram, o absurdo.
Arkin é quem solta as melhores frases, politicamente incorretas e sem vergonha de explodir as verdades. E Dano, como o alienado Dwayne, enfrenta o desafio de passar mais da metade do longa em silêncio e participar da maior parte dos diálogos munido somente de suas expressões de desdém ou de um bloquinho no qual deixa claro o desprezo pela família.
Os diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris são estreantes em longas, mas veteranos no comando de videoclipes - já trabalharam com REM, Red Hot Chili Peppers, Jane’s Addiction, Oasis e Weezer -, com roteiro do também estreante Michael Arndt.
Da trilha sonora e fotografia às interpretações, “Pequena Miss Sunshine” capta as entrelinhas de qualquer crise familiar. Na riqueza de observações dos diretores e na sátira à sociedade americana, a família chega ao bizarro concurso de beleza infantil e o filme, à sua conclusão nada piegas, com uma história bem contada que prova que, às vezes, é importante fazer as coisas somente por fazer - e ainda rir de si mesmo.