09 de julho de 2026
Articulistas

Os varões de Plutarco


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Aos sábados, curto o calçadão da Batista a partir da hora em que aquele velho sol maternal explode nas vitrinas. No café do Raduan os olhos se derramam sobre a fauna e a flora chamejante em desfile. Depois se fecham e são os lábios que se abrem no mais lânguido, mais confidencial, mais úmido, mais concupiscente sorriso. Por lá aparece, vez por outra, o deputado Abrahim Dabus, médico! Rosto alisado por uma vida sadia e pela certeza do dever cumprido; alma marinada num feliz casamento e nas abençoadas vinhas dos filhos talentosos. Sempre traz alguma novidade. Agora descobriu um remédio americano que afina a cintura, onde a adiposidade começa a se acumular depois dos 40. “Aí é que mora o perigo” - ensina. Quem passa de 1 metro e 10 centímetros de circunferência já é candidato a enfarte do miocárdio. Nessa altura até o Toninho Garmes se assusta e pede uma fita métrica.

Como da discussão nascem idéias - além dos perdigotos - o velho Abra revela uma ponta de mágoa, por estar meio esquecido, afastado da mídia desde que deixou a política. Foi uma exaustão natural do eleitorado, após quatro mandatos na Assembléia, todos sabem. Sem perder o bom humor exibe sua dúvida se será lembrado, quando partir, dando nome a alguma rua. “Todas já têm patrono” - confirma o vereador Garmes, racional. Acrescenta que existe ainda uma fila enorme aonde despontam nomes importantes como o de Tobias Ferreira, Nadyr Serra, Célio Gonçalves, Flávio de Angelis. Asseguro a Abrahim, em tom de consolo, que Bauru saberá reconhecer o grande deputado que foi, mandando rasgar uma avenida especialmente com essa finalidade. “Uma homenagem a altura seria o projetado ramo Noroeste da avenida Nações Unidas”.

Exagerei na dose. Abrahim se encolheu como se tivesse ouvido uma piada de mau agouro. Faz parte da cobiça humana ver-se eterno. Afinal, como ele mesmo informa com orgulho, é o primeiro membro do clã dos Dabus a ultrapassar a barreira dos 80. A irmandade se foi, sob o peso da carga genética. Todos com problemas cardíacos ou porque não alcançaram a era do milagre tecnológico na Medicina, como essa tal pílula que afina a cintura. De que adianta uma barriga de tanquinho, com uma torneirinha já incapaz de jorrar.

Recebi uma carta do professor Gilberto Sidinei Vieira, na qual pede a minha adesão “à ira dos justos”, pela não indicação de uma rua para receber o nome de Nadyr Serra, codinome Beija-Flor, como alguém já disse, além do Cazuza. Na verdade, ninguém exerceu com mais dignidade o jornalismo. Ele escrevia seus artigos como se tivesse pedindo desculpas por observar alguma coisa errada. Na sua visão, o pecador mais empedernido haveria de se redimir um dia. Acreditava no ser humano. Era, de fato, um passarinho. Se alguém pisasse no seu pé, por certo pediria desculpa. Infelizmente, neste País o povo não valoriza a retidão de caráter. O espírito desonesto é que é admirado.

A cidade parece crescer só em condomínios de luxo. O Poder Público não manda dentro dos muros. O incorporador põe o nome que quiser nas ruas. De preferência o mais sonoro, para ajudar no marketing. Tipo Alameda da Cesalpina. Por mais patriota que seja, ninguém haveria de querer morar no pau-brasil, nome vulgar das cesalpináceas.

Fora os condomínios horizontais e verticais, a cidade cresce em favelas. Abrahim, como ex-político, homem do povo, até se sentiria bem na periferia. O problema são as manchetes nos jornais: “Tiroteio na Abrahim”; “Travestis fazem ponto na Rua Nadyr Serra”. Machado de Mello, o da praça, ilustre construtor da Estrada de Ferro Noroeste, freqüentou durante muitos anos o noticiário policial. Costa Ribeiro, coitado, ficou estigmatizado como endereço do meretrício. Depois de sofrer durante décadas mudaram a zona mas resolveram substituí-lo pelo Presidente Kennedy. Decisão ditada pela emoção do assassinato. O nosso pioneiro está sem rua até hoje! Temos que achar outro jeito de homenagear nossas figuras ilustres. Minha mulher opina: “Tem uma Rua dos Jornalistas lá no Geisel. Por que não colocam o nome do seu Nadyr, um exemplo para a categoria?” Os proprietários teriam que averbar todas as escrituras; confusão na entrega da correspondência; dor de cabeça para localizar os estabelecimentos; perda de clientela.

Penso que seria melhor encher essa cidade de monumentos para homenagear nossos “varões de Plutarco”, como diziam os oradores de antigamente. Pagos por subscrição pública. Ou então criar espaços culturais, dar nomes a escolas, espalhar placas memoriais, criar galerias de ilustres. Quem sabe, assim, não cairiam no esquecimento de uma cidade, já por si tão desmemoriada.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC