08 de julho de 2026
Mulher

Por trás do véu

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Movimentos sinuosos e cheios de energia embalam os passos da mulher cuja silhueta é destacada por roupas charmosas, véus e maquiagem. À primeira vista, a imagem da bailarina da dança do Oriente, ou dança do ventre, pode chamar a atenção apenas pelo seu caráter sensual. Mas ela vai muito além disto: em uma época em que o corpo feminino é usado em propagandas de cerveja e automóveis, esta expressão artística busca recuperar a feminilidade e a doçura da mulher. De quebra, proporciona bem-estar e auto-estima.

Estes benefícios despertam o interesse de Karina Valentin e Daniela Minoti, ambas dançarinas e professoras de dança do ventre. Karina começou a prática há aproximadamente nove anos e, desde então, se apaixonou pela modalidade. Recentemente, conta, decidiu dar uma pausa na sua carreira de psicóloga organizacional para se dedicar exclusivamente à dança e suas aplicações como arte e terapia.

“A dança do ventre foi feita para seduzir primeiramente a quem está dançando. A sedução do outro, do público, é conseqüência, porque é encantador ver uma pessoa realizada, feliz e trocando energia com o público”, diz ela, que conheceu seu noivo por intermédio da dança do ventre. “Ele passou a prestar mais atenção em mim ao me ver dançar. Ele me apoiou quando decidi mudar de carreira. Hoje ele é meu maior incentivador”, conta.

Daniela ministra aulas de dança do ventre há 12 anos. Segundo ela, esta arte ressalta a beleza e contribui para a vida afetiva. “A mulher se descobre e, com isso, percebe o quanto é única, com suas habilidades e encantos”, aponta.

Karina tem opinião semelhante. Ela destaca que a dança do ventre resgata a feminilidade por meio da suavidade e beleza dos movimentos. Além disso, proporciona segurança, consciência corporal e estimula a memória e da concentração são outros pontos positivos, diz. “A dança do ventre não expõe a mulher como fazem os anúncios de cerveja, por exemplo. Ela é positiva para a vida íntima e afetiva na medida em que a mulher sente-se mais segura, percebe-se capaz de se mover de forma graciosa e atraente. Consequentemente, ela passa primeiramente a gostar mais de si, a aceitar-se e a ver beleza em seu corpo e em seus movimentos. Tudo isto reflete de forma positiva em sua auto-estima e em seu relacionamento afetivo”, avalia.

De acordo com Karina, além dos benefícios emocionais, a dança do ventre também contribui para a melhora da vida sexual. Isto porque o trabalho muscular durante a dança envolve, entre outras, a região do assoalho pélvico. “Conforme ela é exercitada, recebe maior fluxo sangüíneo, melhorando, assim a sensibilidade desta região”, detalha. Daniela concorda. “A mulher é simbolicamente a representação da vida. Junta-se a isto a sensualidade e sexualidade, que traduzem este conjunto de forma plena.”

Aspectos físicos também são estimulados na dança, apontam as professoras. Desde a melhora da coordenação motora até a diminuição da intensidade das cólicas menstruais, passando ainda pela tonificação dos músculos, flexibilidade, postura e preparação do corpo para a gravidez e o parto.

Mas para alcançar os benefícios físicos, emocionais e psicológicos é necessário dedicação e força de vontade. Karina explica que não existe restrição quanto a idade ou tipo físico para a prática da dança do ventre. Iniciantes, em média, precisam praticar a modalidade durante um ano para se apresentar em público. Além disto, é necessário prestar atenção quanto à postura. Dançar com o “bumbum empinado”, por exemplo, pode interferir nos movimentos e até mesmo provocar barriguinha, o que na verdade não passa de um mito causado pela própria falha postural. “Além disto, a ‘barriguinha’ aparece em quem leva uma vida sedentária e não se alimenta de forma correta”, acrescenta.

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Origem

A dança do ventre, também denominada Raks el Chark, dança do Leste ou ainda Belly Dance, é uma arte milenar, que tem sua origem no antigo Egito, aponta Daniela Minoti, dançarina e professora de dança do ventre.

De acordo com ela, a modalidade era considerada uma dança ritualística, sendo praticada por sacerdotisas, sem apresentação em público. Com o tempo ela foi se tornando conhecida e sendo apresentada em palácios, templos e ocasiões solenes. Depois, por meio da invasão árabe, houve uma mistura de culturas, e foi este povo que, com sua tradição de viajantes e mercadores, a levou para o resto do mundo.

“Não podemos esquecer que a dança do ventre tem um grande peso cultural, pois conta a história de um povo desde seu nascimento, desenvolvimento familiar e econômica até sobre a região em que ele vive”, diz. “Além disto, se vê na dança do ventre, hoje, muitos ritmos folclóricos em seus elementos”, acrescenta a professora.