10 de julho de 2026
Geral

Apesar de salário maior e melhorias, faltam 53 médicos na prefeitura

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 4 min

Apesar da prefeitura de Bauru ter feito investimentos estruturais em unidades de saúde, ter aberto vários concursos seguidos e reajustado o salário para médicos, o déficit no quadro clínico da Secretaria de Saúde ainda é imenso: faltam 31 clínicos gerais e 22 pediatras, sem contar especialistas.

O último concurso teve número recorde de inscrições registrado nos últimos anos, talvez reflexo dos investimentos e do reajuste salarial: 40 candidatos. Mesmo assim, não serão suficientes. Dos 40, 30 fizeram o teste e 20 passaram. Foram aprovados seis clínicos e três pediatras. Se todos assumirem as vagas, o déficit de médicos ainda continuará grande. Por isso, a prefeitura abriu novo processo seletivo. Médicos continuam apontando que se o atual salário for mantido, o déficit deve continuar.

Porém, recentemente foi aprovada bonificação de 80% do salário para médicos da rede básica. O governo municipal fez reformas e reestruturou unidades, aumentou equipes do Programa Saúde da Família. Hoje, a prefeitura reinaugura a unidade de saúde do Jardim Redentor, que foi ampliada com investimentos de R$ 281 mil. Na semana passada, a unidade de saúde da Vila Cardia foi reinaugurada, também reformada e ampliada.

Todas essas iniciativas são pontuadas pelo secretário municipal de Saúde, Mário Ramos, como melhorias feitas no setor neste último ano, e que estariam despertando o interesse de médicos. “O último concurso teve procura recorde, batendo os últimos anos. Antes, a gente abria processo e quase não apareciam candidatos”, lembra Ramos. Atualmente, a cidade conta com o segundo melhor salário da região, atrás apenas de Pederneiras, que inclusive deve ter novo aumento em maio. Porém, depois de muitos anos sem benefícios, a classe continua evitando a rede pública municipal.

Além de benefícios melhores, em cidades da região o número de pacientes é menor do que em Bauru, o que motiva médicos da cidade a procurar outras prefeituras. Em Agudos, por exemplo, apesar do salário menor que Bauru, há 16 médicos bauruenses na área pública. Já em Pederneiras, são seis profissionais que preferem viajar a permanecer somente com plantões e atendimentos em Bauru.

Muitos pacientes

Uma pediatra que pediu para não ser identificada revelou ao JC que jamais voltaria a atuar nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Bauru por conta do baixo salário oferecido e pela grande demanda. Ela preferiu reduzir o horário dos plantões que faz na cidade para poder trabalhar mais horas em outras três prefeituras. “A região paga o triplo do que eu ganho em Bauru”, aponta. Apesar dos investimentos que a prefeitura fez na área, ela continua firme em sua decisão.

“Foi divulgado que o aumento para médico de unidade básica de saúde é de 80%. Mas na verdade é de 45%. A prefeitura substituiu uma bonificação de 35% por uma de 80%”, diz. Depois de atuar nas unidades da Vila Ipiranga e do Mary Dota, ela continua apenas com plantões no Pronto Atendimento Infantil (PAI). “E é por amor à equipe. Algumas vezes, ficamos em apenas dois plantonistas. Tem dia que mesmo de folga os colegas pedem ajuda no atendimento e eu acabo indo, porque sei o quanto é difícil plantão em Bauru”, conta.

Para o médico conselheiro do Conselho Regional de Medicina (CRM), Carlos Alberto Monti Gobbo, não é apenas o salário que compõe o interesse do médico na hora de procurar emprego. “Ele não se atém somente ao pagamento, mas analisa condições de trabalho, segurança, se o lugar é adequado. Os médicos que atuam em Agudos e Pederneiras, por exemplo, enfrentam demanda menor e uma pressão menor”, avalia.

Para ele, um dos principais aspectos para esse déficit de médicos que assombra Bauru há pelo menos um ano é a questão salarial. “Existe esse adicional aprovado em março pela prefeitura, mas há uma demanda muito grande”, afirma. Outro fator apontado é a exigência de horário.

Gobbo observa que em algumas cidades, para a administração não perder profissionais, o poder público não exige o cumprimento efetivo das horas. Isso é impensável para uma cidade com a demanda de pacientes como Bauru. “Há sobrecarga de trabalho em Bauru, onde é exigido o cumprimento total das horas. Esses fatores podem ser determinantes para um médico”, pontua.

Com o déficit de médicos persistindo, Gobbo aponta uma saída: oferecer mais dinheiro. “Depois de tantos concursos, deve-se reconhecer que precisa melhorar o interesse do médico, oferecendo um diferencial no salário”, diz.

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Salário

Em Piracicaba, cidade do mesmo porte de Bauru, o salário oferecido aos médicos que ingressam no município é de R$ 2.196,16 para 20 horas semanais - um terço a mais do que um médico bauruense ganha pelo mesmo período. Na rede básica de Bauru, o salário-base é de R$ 1.103,90, mais abono de R$ 50,00 e adicional especial de saúde de 80%. Em Piracicaba o salário-base é de R$ 1.778,85, o adicional é de R$ 70,00 e os médicos ainda recebem abono de desempenho de 60% do salário.

Mesmo com um salário muito mais atrativo, os dirigentes daquele município também não conseguem completar o quadro de especialistas. Segundo Antônio Carlos Gonçalves Alves, diretor administrativo da Saúde em Piracicaba, o último concurso não conseguiu suprir o déficit. “Foram 13 aprovados para nove vagas. E nem todos assumiram”, conta. Para ele, cidades menores, com demanda menor e menos descontos nos pagamentos acabam atraindo os médicos.