09 de julho de 2026
Articulistas

Para que serve a escola?


| Tempo de leitura: 4 min

Antes de tudo a escola é um lugar de crescimento. O interagir, o compartilhar e o competir passam a ser mais claramente apresentados quando chegamos ao ambiente escolar. A noção de que o mundo é mais amplo, mais complexo e, principalmente, bem mais diverso do que aquele que conhecíamos antes da matrícula, chega mais visível aos nossos corações. E quanto mais cedo tivermos contato com essa realidade, melhores seremos. Quando digo melhores não quero dizer que, apenas, nos daremos bem na vida; mas que poderemos fazer bem à vida, à sociedade da qual fazemos parte e que, contraditoriamente, nos distanciamos quanto mais créditos de “inteligência”, “competência” ou “sucesso” conquistamos.

A escola tem o poder de desmistificar essa interpretação errada do saber ou, pelo lado pior, ampliá-la a estágios irreversíveis. Pode avançar transmitindo o conhecimento acumulado por gerações e ao inserir novos olhares proporcionar, digamos, uma correção de rota, ou perpetuar históricas injustiças. Uma boa escola, pública ou privada, sabe que mais do que “ensinar” possui uma intransferível missão social, sim. Não é a única e nem deve ter a pretensão de ser a mais eficiente das formas de transmissão de conhecimentos e valores e é injusto que arque sozinha com o ônus de um país mal educado, mas tem sobre si uma responsabilidade que vai além, muito além da mera “escolarização”.

Junto das primeiras letras e números, é na escola que surgem as mais fortes experiências de fracasso e sucesso cujos sulcos marcam personalidades pelo resto de nossas vidas. Fora da proteção da família somos testados numa arena tão nobre e, ao mesmo tempo, cruel, assim como é, e será, o mundo lá fora. O primeiro amor, o melhor amigo e a busca de um lugar no grupo disputam com professores e livros as descobertas que nos farão, a partir delas, pessoas mais ou menos seguras, sucedidas ou felizes. A escola não tem uma varinha mágica capaz de transformar abóboras em carruagens, mas tem a obrigação de tornar esse lugar, fundamental em nossa sociedade, num espaço agradável de aprender, freqüentar e conviver.

Estudos recentes mostram que a partir dos três anos é uma fase ideal para se juntar o estímulo familiar a uma boa escola. Mas e quando não existe essa base familiar? Aí, mais do qualquer outro momento, deve surgir a presença do Estado, um real poder, forte, mas não absoluto, capaz de interferir, equilibrar e desenvolver. A escola, desde a infância, tem uma missão que não é, necessariamente, de produzir gênios, mas de promover gente. Um hospital precisa de médicos, um jornal de jornalistas, mas uma nação é feita de cidadãos. E a melhor forma de forjá-los é através da Educação, que nunca se esgota.

Com efeito, um curso é um mero percurso no longo decurso da vida, bem traduz o lingüista da Universidade do Minho, Portugal, Álvaro Gomes, autor do livro “A Escola”, que compara a educação à alimentação: “Não conheço ninguém que se tenha alimentado até uma certa altura da vida e tenha dito para consigo: Estou suficientemente alimentado! Vou parar por aqui!”. A educação não pára! Falo tudo isso porque as faculdades e universidades instaladas em Bauru criaram recentemente um fórum de debates para pensar a cidade e o bem-estar das pessoas que nela moram. Como primeira discussão, aqueles que fazem a Educação Superior colocaram em pauta justamente a questão da qualidade do ensino na Educação Básica. O raciocínio é lógico: uma criança bem educada será um bom universitário e, conseqüentemente, um bom profissional. Assim, as chances de ser um bom cidadão podem aumentar bastante. É uma tentativa oportuna, porém desafiadora, já que o Brasil apresenta um atraso de 120 anos na área educacional, se comparado aos países do chamado Primeiro Mundo.

Mas se, apesar das boas intenções, nada mudar na educação brasileira, resta aos nossos jovens o consolo da provocação, nas palavras do educador português: “A escola era péssima; os professores eram péssimos; os programas eram péssimos; os livros eram péssimos. Era tudo péssimo. Ah! Mas eu enganei-os! Eu aprendi!”.

O autor, Luís Victorelli, é jornalista. Atua na Universidade de São Paulo (USP) e Universidade do Sagrado Coração (USC). Membro da Comissão fundadora do Fórum Permanente da Educação Superior de Bauru