A edição do JC de terça, 17, trouxe a notícia do falecimento da sra. Julieta Petit, ocorrido em Presidente Prudente, aos 86 anos, mãe de Maria Lúcia Petit da Silva, Jaime Petit e Lucio Petit , todos executados na chamada “Guerrilha do Araguaia”. O único corpo localizado até agora foi o de Maria Lúcia. Sobre essas e outras mortes na famigerada guerrilha, assinale-se que não teve a repercussão merecida o livro "O Nome da Morte", do jornalista Klester Cavalcanti (Ed. Planeta, 2006). Nele o autor narra a saga de Júlio Santana, descrito como “a história real do homem que já matou 492 pessoas”.
Como? Cumprindo compromissos profissionais. Sendo matador de aluguel, tornou-se exímio pistoleiro, ensinado por um tio que era da Policia Militar do Pará (excelente escola!). O que distingue Júlio Santana dos demais “colegas de ofício”, tidos como numerosos nas plagas do assim chamado Brasil Remoto, onde o Estado do Pará pontifica como recordista, é que ele teve o cuidado de registrar num caderno espiral todos os compromissos cumpridos: anotou nome, data, onde foi e como foi, nome do mandante e quanto foi a paga pela “encomenda”, tudo, segundo narrou a Cavalcanti.
Tentando viver recluso, mudando constantemente de moradia e de celular, conseguiu passar incólume (e ainda está), pela cobrança de seus atos perante a Justiça. O autor Klester Cavalcanti vinha tentando há muito entrevistá-lo. Arisco, Júlio desaparecia. Até que, talvez picado pela “mosca azul” e deixando-se vencer pela vaidade, que Cavalcanti soube explorar, concordou em contar sua vida em detalhes, agora nas páginas do livro.
Segundo narrado por Santana ao autor Cavalcanti, o tal caderno teria sido jogado nas águas de um rio da região amazônica, a fim de ser apagado para sempre. Se non e vero e bene trovatto, diz o ditado italiano. Esse caderno certamente o incriminará, por um lado. Por outro, revelará os nomes de todos os mandantes. Por conclusão, não interessa que apareça. A razão deste comentário? É estarmos perante o executor da bauruense Maria Lúcia Petit da Silva, segundo relatou ao autor do livro. Trecho, págs. 136 e 137:
“Por causa do ferimento na perna direita, o comunista machucado inclinou-se para o lado direito e dobrou levemente os joelhos. Esses movimentos fizeram com que o tiro, que deveria pegar o ombro, o atingisse na cabeça, do lado esquerdo. O corpo caiu no solo e ali ficou, sem mover-se. Júlio sabia o que tinha acontecido. Quis não acreditar que acabara de matar mais uma pessoa. (...) Ainda rezava(?), quando ouviu o delegado chamá-lo. Contra a própria vontade foi até o local onde o corpo havia caído. Ao aproximar-se ouviu um dos militares dizer: “É uma moça”. Júlio sentiu-se ainda mais culpado. Por motivos que ele próprio desconhecia, acreditava que matar uma mulher era pior do que tirar a vida de um homem. A guerrilheira tinha o rosto sereno. O olhos ainda estavam abertos.
“(...)
- “Não era para matar, Julião. Eu falei que não era para matar – disse (o delegado) Carlos Marra, num tom pesado, smas sem levantar a voz.
-“Eu sei, delegado. Eu não ia matar ninguém. Mas quando eu atirei, ela se inclinou e a bala acabou pegando sua cabeça.
- “Não tem problema, interrompeu um dos militares”, a quem Carlos Marra chamava de tenente “Isso pode ser até bom, para mostrar a esses comunistas que não estamos aqui para brincar. Ou eles acabam com essa “revolução” (qual?), ou vão morrer um por um.”
A terra gira, o tempo passa, os anos se vão, a política muda, não existem mais nem comunismo, nem muro de Berlim, só existe o Império do Norte, como potência hegemônica, à qual todos se submetem, inclusive o governo dito de esquerda de Lula. Foi-se a ideologia, só ficaram os interesses, no ocidente e no oriente, a leste e a oeste de Greenwich. É a globalização.
A morte de Maria Lúcia foi-lhe uma benção. Bafejada pela Divina Providência, não sofreu a terrível tortura dos captores, como por ex. José Genoino, ferido na mesma ocasião, apanhando e levando porrada mesmo ferido ali na selva, e depois nos porões da ditadura que durou 20 anos. Sua sobrevivência foi um milagre. Como diz a letra genial de Chico Buarque: “você me pega vivo e eu escapo morto”.
Quanto ao pistoleiro Júlio Santana, o Julião, como nada consta em contrário, deve estar lépido e fagueiro, em lugar incerto e não sabido, perdido no Brasil Remoto.
O autor, Faukecefres Savi, é advogado e jornalista-colaborador. Escreve no JC as colunas semanais Trabalhismo e Previdência e Livros Jurídicos, colabora na coluna Opinião