09 de julho de 2026
Regional

Menino morre a tiro após assalto

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

Ibitinga - A tarde da última segunda-feira ficará marcada na vida dos moradores de Ibitinga (90 quilômetros de Bauru) como um dia de terror provocado pela violência urbana, situação vivida somente em grandes metrópoles. Seis homens uniformizados como policiais civis, fortemente armados, assaltaram uma relojoaria. Levaram cerca de R$ 50 mil em jóias e relógios. Na fuga, atiraram contra um menino de 12 anos e uma jovem de 16. Mateus dos Reis Costa morreu na madrugada de ontem.

A relojoaria ficou fechada por luto, em respeito à morte do menino, apesar do proprietário nem conhecer a vítima. Nas imediações do comércio de jóias, onde está instalado o Terminal Rodoviário, ponto de parada de ônibus, ponto de táxis e ponto de caminhões, além de várias lojas, o silêncio impera. “Eu prefiro não falar. Foi muito traumático”, declarou uma vizinha da relojoaria.

Nenhum outro vizinho quis falar por temer pela própria vida. As poucas testemunhas só fizeram relatos condicionados à garantia de preservação de sua identidade. Um caminhoneiro que estava no ponto contou que, inicialmente, não percebeu que era um assalto. “Eles chegaram em um Gol cinza. Todos usavam camisas pretas com emblema da polícia civil. Eles entraram na loja armados, mas não dei muita atenção porque, para mim, eram policiais.”

Só quando ele ouviu o barulho de vidro quebrando é que deu mais atenção ao fato. “Eu sai detrás do caminhão e reparei que as vitrines estavam sendo quebradas. Imaginei um assalto e a polícia agindo. Percebi que tinha mais um carro, era um Santana claro.”

O caminhoneiro passou a observar e percebeu que os “policiais” fugiam. “Saíram os dois carros enquanto os policiais militares faziam revista em uma pessoa aqui na rodoviária. Os PMs embarcaram na viatura e foram atrás dos dois veículos.”

Um taxista contou que os PMs foram acionados, se dirigindo diretamente para a rodoviária e revistaram um guia de negócios da cidade. “Enquanto eles revistavam o guia, os assaltantes estavam a 100 metros deles, praticando um dos maiores assaltos da história da cidade.”

O delegado de polícia de Ibitinga, Carlos Alberto de Oliveira, não atendeu a reportagem. A equipe de investigação tratou de dar as informações. Para eles, as imagens feitas pelo sistema de segurança da relojoaria estão péssimas.

A polícia ainda não tem suspeitos. “O proprietário da relojoaria disse que a placa do Gol é de São Paulo, mas ainda não sabemos se a quadrilha é de lá.”

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Em choque

Os pais de Mateus Costa estão em estado de choque. A mãe, Ana Paula, não fala. O pai, Celso dos Reis Costa, desabafou. “Espero que meu filho não se transforme em um número estatístico de mortes violentas e que a polícia consiga esclarecer o crime. 500 anos de cadeia para esses assassinos é pouco.”

Na opinião do pai, o brasileiro não tem mais para onde correr. “Eu vejo isso todo dia na televisão. Acontece em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas em Ibitinga é inacreditável. O problema é que quem tem o poder não faz e nós é que pagamos o preço da negligência”, avalia.

A vizinha de Mateus, que “dividiu” o tiro com ele, não quis conversar com a reportagem. Está traumatizada, assim como a sua família.

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Despistar a polícia

A morte do menino Mateus dos Reis Costa comoveu não só a família e as pessoas diretamente ligadas ao fato, mas a cidade toda. Na opinião de alguns moradores, o tiro que acertou os dois jovens foi a estratégia usada pelos assaltantes para parar a polícia. A professora de história de Mateus, Ester Rosseto, é enfática em dizer que os marginais atiraram nas duas vítimas para que a polícia parasse de persegui-los. “Eles levaram o sonho de um garoto que despontava como titular no time de vôlei da escola. Ele já tinha participado de campeonatos estaduais onde o time se sagrou campeão.”

A colega de escola de Mateus, Gabrieli Cristina Faria, 11 anos, não conseguiu falar sobre o assunto. A emoção tomou conta dela ao pensar que o amigo com quem convivia todos os dias está morto.

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Seis minutos de pânico

“Foram seis minutos de terror e pânico”, testemunhou o proprietário da relojoaria Souza, Ricardo Alvarenga de Souza. Os ladrões não estavam encapuzados e nem preocupados em mostrar o rosto. Colocaram até os transeuntes para dentro da loja e mandaram todos deitarem. “Até um ciclista que passava por aqui foi colocado para dentro da loja. Queriam falar com o Ricardo que teria a chave do cofre. Eu não me identifiquei e os funcionários disseram que não sabiam da chave.”

Os assaltantes, na opinião da vítima, não estavam estressados. “Eu saí pela porta lateral e entrei na casa que fica nos fundos. Usei o telefone para acionar a polícia, que já tinha sido acionada. Eu e meu irmão fomos agredidos fisicamente por eles. Os policiais chegaram e foram revistar uma pessoa na rodoviária. Acho que não perceberam que o assalto era aqui.”

Dois dos ladrões estavam com máscaras usadas por profissionais de saúde. “Eram os ocupantes do Santana, que ficaram na vizinhança, ameaçando-as para que elas não acionassem a polícia.”

Na opinião da vítima, os assaltantes voltaram para fazer o “serviço” não realizado há três anos. “No primeiro assalto, eles não conseguiram levar nada. Nós reagimos e eles fugiram. O caso foi mal-resolvido e um dos ladrões chegou a ser preso.” Os investigadores que trabalharam no caso se limitaram a dizer que ele foi resolvido. “Uma pessoa foi presa, mas já está solta.”

O tiro

Os marginais atiraram contra a viatura policial, mas acertaram os dois jovens que estavam na rua.O tiro atingiu o abdómen da vítima fatal, transfixou seu corpo e atingiu o pé da jovem de 16 anos, que teve seu nome preservado. Os ladrões seguiram em direção a um canavial e continuaram a ser perseguidos, momento em que atingiram a viatura com um tiro de metralhadora.