08 de julho de 2026
Nacional

Programa de TV leva criança ao hospital

Por Juliana Daibert | O Diário do Norte do Paraná, especial para o Jornal da Cida
| Tempo de leitura: 3 min

A família de Adriana Alves Dias enfrentou um final de semana bastante incomum. Desde o final da tarde de domingo, a jovem enfrenta uma situação inusitada, provocada por um programa de TV. Tudo começou quando a filha de Adriana, M. A. D. S., 6 anos, assistia a um quadro de vídeos no “Programa do Gugu”, transmitido pelo canal SBT.

Uma das gravações mostrou um homem apresentando uma sessão de hipnose, na qual ele engolia a língua até as amígdalas. Segundo informações de familiares que assistiam ao programa junto com a criança, a cena provocava nojo. Tão logo a exibição terminou, a criança começou a chorar e gritar. Assustada, tirou a língua para fora da boca e assim passou o resto do dia. “Eu estava com ela na sala e até pensei que fosse manha de criança. Na hora eu não me preocupei muito”, contou a mãe.

Eliana Cláudia Alves, avó de M. e mãe de Adriana, disse que a neta estava com muito medo de engolir a língua. “Ela não deixou ninguém mexer na língua dela para tentar colocar de volta dentro da boca”, disse.

Segundo Eliana, mesmo explicando que nada aconteceria se ela guardasse a lingüinha, M. se recusava a fazê-lo. Sem ter-se alimentado no restante do dia ou dormido naquela noite, M. foi levada para o Hospital Municipal (HM) na tarde de segunda-feira, na mesma situação. No hospital, a criança precisou tomar soro. “Nem leite ela bebeu. Para tomar suco, ela pedia para colocar um canudinho no canto da boca”, contou Adriana. Mesmo falando, a criança mantinha a língua para fora da boca.

Atendida por profissionais da Emergência Psiquiátrica do HM, M. deve continuar internada na pediatria até o final da semana. Ontem à tarde, o diretor técnico do hospital, Ricardo Plépis, reuniu jornalistas para conversar sobre o caso de M., a paciente mais nova já atendida pela emergência do hospital.

Sem detalhes, Plépis afirmou que M. estava medicada e sendo acompanhada por um psiquiatra, por uma psicóloga e uma terapeuta ocupacional. “Ela está evoluindo bem, mas ainda não consegue colocar a língua de volta na boca.”

De acordo com Plépis, a criança deve ter somatizado o medo que sentiu ao ver a cena na TV e exteriorizou o sentimento, tirando a língua da boca. “Não sou psiquiatra e não atendi a paciente, mas talvez a cena que ela viu tenha sido marcante e tenha desencadeado uma atividade anormal em seu inconsciente”.

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Psiquiatria explica ação

Para o psiquiatra e psicoterapeuta Cleto Rocha Pombo Filho, o que aconteceu com M. pode ser entendido como uma “indigestão psíquica”- uma ansiedade muito grande, capaz de bloquear a capacidade de pensar, reprimindo o conteúdo desse sentimento. “Pode ter sido uma reação normal da fantasia da criança, que está se defendendo para não perder a língua. Para ela isso é possível e, por não ter senso crítico suficiente para diferenciar as coisas, ela precisa de tempo para digerir e eliminar devagarinho essa ansiedade”, explica o médico.

Segundo ele, não foi a imagem que provocou a reação de M., mas a fantasia criada em cima do que ela assistiu. “A boca é a maneira de relacionamento mais primitiva que temos. Sua defesa foi proteger a língua, deixando fora da boca”.