A primeira vez que o Aeroclube de Bauru subiu ao pódio em uma competição oficial de vôo à vela foi em 1954. E aquele foi o último vôo do piloto bauruense vencedor. Vasco Figueira Pinto, 79 anos, conta que depois de ter conquistado a 3.ª colocação no campeonato, se aposentou dos planadores. Pelo feito, ele será homenageado nesta terça-feira pelo Aeroclube de Bauru junto de outro antigo piloto, o ex-presidente da Associação Luso Brasileira de Bauru, Antônio Marques Rodrigues dos Santos. Ontem à tarde, quando recebeu a reportagem do Jornal a Cidade, Vasco relembrou momentos que marcaram a sua trajetória no Aeroclube.
Ele lembra que a primeira vez que subiu num planador se apaixonou pelo vôo à vela. “Era uma aeronave que chamávamos de “Canguru”, ele possuía asas flexíveis e era aberta”, conta. O instrutor era Heindrich Kurt, um dos pioneiros da aviação em Bauru. Apesar de estar em boas mãos, a primeira experiência de Vasco num planador quase foi a última. “O Kurt ficava lá longe, com uma bandeira, acenando para dar ou reduzir velocidade. Quando o Canguru estava a um metro do chão, eu comecei a sentir o vento no meu rosto e achei aquilo maravilhoso. Tive a melhor sensação do mundo. O problema foi que eu esqueci de olhar para a bandeira do Kurt”, recorda. Não deu outra: a aeronave despencou no chão.
Com o impacto, Vasco, que na época tinha 16 anos, torceu o pé. “Cheguei em casa amparado por dois amigos. Assustados, meus pais, que não tinham me dado a autorização para ir para o Aeroclube, me proibiram de voltar lá”, lembra. Apesar da proibição, ele continuou a voltar escondido para o hangar. Foi só com a intercessão de Luiz Bevilácqua que o pai de Vasco liberou seu filho.
A partir daí, Vasco fez o curso de pilotagem do Aeroclube e chegou a ser instrutor de vôo à vela. A primeira competição que ele participou foi em São José dos Campos. Ele ficou em segundo lugar, atrás de Kurt. “Era uma prova de distância. O Kurt parou em Taubaté e eu parei em Caçapava. Os outros pilotos voaram em direção ao litoral e ficaram presos na Serra do Mar”, lembra. Aliás, a aventura de Vasco não parou com a aterrissagem. Ele desceu o planador numa pista que estava alagada. “Eu pensei que seria apenas uma lâmina de água, mas o planador começou a afundar. Eu peguei o pára-quedas e tive que subir na asa da aeronave”, relata. O piloto foi salvo por uma equipe do Exército que estava aquartelada próximo à pista de pouso.
Acrobacias
Vasco também era chamado a diversos aeroclubes para fazer acrobacias com planador. “Recebiam a gente com bandinha em alguns lugares. Conheci muitas cidades assim”, diz. Um vôo especial, lembra Vasco, foi um que saiu na capa do jornal bauruense Correio da Noroeste. O piloto voou de Bauru a Lins, num percurso que durou quase seis horas. “Foi muito difícil. Teve trechos que voei a menos de 100 metros do chão. Próximo a Araribá, achei que fosse ter que parar. Dei um mergulho e estava mais baixo que os eucaliptos do terreno, mas peguei uma ascendente e consegui voltar a altitude”, conta.
A despedida de Vasco foi justamente no primeiro campeonato oficial de vôo à vela no Brasil, em Ribeirão Preto, em 1954. Ele conseguiu o terceiro lugar. De acordo com Mário Bevilácqua, que está organizando a homenagem a Vasco, o piloto ficou atrás de um alemão e um húngaro naturalizados brasileiros. Na hora de voltar para casa, o planador de Vasco foi rebocado pelo amigo Benedito César, o Zico. “Ele me levou até Marília, onde eu morava. Foi o meu último vôo e também a última vez que eu vi o Zico”, conta, emocionado.
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Festa
Prestes a comemorar 80 anos, Vasco conta que nunca mais pilotou um planador. “Me mudei para Marília, casei e não voei mais. Mas aquela foi uma época muito boa”, diz. A homenagem aos pilotos será na próxima terça-feira, às 9h, no Aeroclube de Bauru, durante o encerramento do concurso de fotos promovido pela entidade. O evento faz parte das comemorações dos 68 anos do Aeroclube.