Para a empregada doméstica Fátima (nome fictício), 45 anos, quando uma pessoa da família é presa é como se toda a família fosse condenada à reclusão. Não só pela vergonha de sair de casa e mostrar a cara para os vizinhos, mas porque esses próprios vizinhos excluem-na do convívio social.
“Antes do meu filho ser preso, a gente era convidada para todas as festas de aniversário aqui no bairro. Depois que ele foi para a cadeia, nunca mais fomos convidados. Eles ficam presos lá (na penitenciária) e nós presos aqui fora”, diz Fátima.
“Se eu tivesse uma casa bonita, todo mundo estaria batendo à minha porta para oferecer ajuda. Mas como sou pobre e minha casa não é bonita, até hoje nunca ninguém veio perguntar se eu estou precisando de alguma coisa”, desabafa Fátima, que diz ter ficado dias sem ter o que comer. O filho de 23 anos está preso há cinco em Bauru.
Riscos
Assim como ele teve um “momento de bobeira”, outras pessoas correm o mesmo risco, diz Fátima. “Toda família está sujeita a ter alguém preso. Isso pode acontecer com qualquer um”, frisa ela. “Ouvi muito riso pelas minhas costas. Já sofri muito com tudo isso. É como se você ficasse só no mundo”, compara.
Fátima, a exemplo de outros parentes de presos, está desempregada. O marido saiu da cadeia há pouco tempo e também não consegue emprego. “Antes (quando ninguém da família estava preso) era fácil conseguir trabalho. Agora, quando o patrão fica sabendo que eu tenho um filho preso, ele diz que entende minha situação, mas é tudo mentira. Tanto é que estou na rua de novo”, diz ela, referindo-se à falta de trabalho.
“Não saía de casa”
Vergonha. Essa é a justificativa da viúva aposentada Regina (nome fictício), 57 anos, para evitar contato com qualquer pessoa do “mundo exterior”. Quando um de seus três filhos foi preso em maio de 2003, depois de ter assaltado um posto de combustível, ela se trancou dentro de casa e evitava sair até mesmo no portão.
Ela conta que os vizinhos mais próximos sempre deram apoio à família, mas no restante do bairro o preconceito foi e continua sendo muito grande.
Nem mesmo os 25 anos de residência no bairro foram suficientes para tornar a vida da família menos dramática. “Meus filhos cresceram aqui. Eles são conhecidos de todos. Nunca fizeram mal a ninguém. Eles sempre trabalharam e de repente todo mundo fica olhando torto”, reclama.
Quatro meses depois que o filho mais velho havia sido preso, foi a vez do caçula ser detido. Numa briga de rua, foram feitos vários disparos e uma pessoa morreu. O filho de Regina foi um dos acusados e está preso. “Posso dizer que meu sofrimento é duplo”, lamenta a mãe, que mesmo depois de quatro anos da prisão dos filhos ainda precisa de antidepressivo para agüentar a tristeza.