08 de julho de 2026
Ser

Ó vida, ó azar...

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 5 min

Na década de 60, a hiena Hardy Har Har, personagem de desenho animado criado por Hanna-Barbera, chamou a atenção pelo seu perfil pessimista. Irradiava tristeza por onde passava, tanto que a lamúria “Ó dia, ó tristeza, ó vida, ó azar” tornou-se sua marca. Embora tenha sido criada há mais de quatro décadas, a hiena da ficção ainda “inspira” uma grande parcela de pessoas na vida real, cuja principal característica é o mau humor. Para algumas delas, acordar alegre ou dar uma gargalhada, por exemplo, são atitudes raras no dia-a-dia.

Mas será que o mau humor constante é apenas traço de personalidade ou pode ser considerado uma doença? Nem uma coisa, nem outra, aponta o psiquiatra Geraldo Possendoro, professor de especialização em medicina comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ele, mau humor é uma expressão leiga que significa que o indivíduo não está bem, emocionalmente, consigo mesmo. “O mau humor faz parte da vida e todos passam por isto em algum momento ou período de suas vidas”, observa.

O problema ocorre quando a pessoa não domina mais o seu humor e sente uma tristeza intensa, que não se justifica, aponta Geraldo. “Isto começa a afetar seu organismo, causando alterações de apetite, que pode aumentar ou diminuir, e do sono, além da diminuição do desejo sexual. E as coisas que ela gostava de fazer antes não gosta mais; o que lhe dava prazer antes não dá mais”, aponta.

Em geral, esta tristeza persiste por mais de 15 dias e a própria pessoa não entende ou localiza as causas claras desse sentimento, acrescenta Geraldo. Nestes casos, explica, o quadro não é de simples mau humor, podendo, sim, evoluir para depressão ou ainda distimia, uma forma crônica de depressão, com sintomas mais leves. De acordo com Geraldo, há pessoas com depressão grave que ficam paralisadas, desmotivadas e sentindo um enorme “vazio”.

Já os distímicos tendem a reclamar de tudo e enxergarem somente o lado negativo das coisas, mas, na maioria das vezes, conseguem desempenhar as funções básicas do cotidiano e continuam tocando a vida. “Na distimia, o indivíduo tem uma forma de funcionar mau humorada na maior parte do tempo, mas não é apenas isto. “São pessoas que ficam ruminando os fatos da vida de forma muito intensa, têm tendência a isolamento. Podem ainda ter alterações de sono e apetite”, detalha Geraldo.

A psicanalista bauruense Luciana Guareschi acrescenta que as pessoas nem sempre percebem que o mau humor também pode ser indicativo de um transtorno de humor, como a distimia. “Às vezes a pessoa é mau humorada e pessimista, e isto pode indicar uma doença. Existe uma linha médica que acredita que isso é uma característica da distimia”, explica.

Patologia

Na opinião de Geraldo, não é tão fácil diagnosticar a distimia. “Hoje em dias as pessoas têm muitas razões para estarem apreensivas, pensarem e ruminarem sobre o futuro. As pessoas podem passar por momentos de tristeza muito intensa, mas não quer dizer que são distímicas.” É o caso da universitária Natália, 18 anos. Ela conta que costuma ficar de mau humor em épocas de avaliação na faculdade. “Quando a prova é muito difícil, às vezes não consigo dormir direito e fico mais irritada. Fico mais mal humorada, mas isto tem explicação”, diz.

Luciana compartilha de pensamento semelhante. “É difícil conceitualizar o mau humor, mas isto inclui um pouco de apatia, pessimismo, da falta de ânimo para levantar, fazer as tarefas e o trabalho, em alguns casos, é desempenhado de forma muito custosa”, diz, alertando que é fundamental uma avaliação médica detalhada para diagnosticar a patologia.

Geraldo ressalta, no entanto, que se o mau humor for um estado de espírito muito prolongado, com duração de meses ou anos, o diagnóstico de distimia tem que ser levado em consideração e a pessoa deve procurar um profissional especializado na área e, se necessário, iniciar tratamento médico.

A dona de casa Raquel*, 55 anos, foi diagnosticada como distímica há dois anos. Ela sempre achou que a rabugice fizesse parte de sua personalidade, mas nos últimos tempos passou a brigar muito com a irmã e se irritar por bobagens, motivos que a levaram ao médico.

“Da última vez que viajamos, em uma excursão, eu reclamava de tudo: se fazia sol, achava que estava muito calor. Se o tempo esfriava, não gostava de colocar blusa. O ar-condicionado do ônibus e as paradas no posto também eram um problema. Tudo era desconfortável e, muitas vezes, me sentia nervosa”, revela. Alguns familiares de Raquel perceberam que algo estava errado e a incentivaram a procurar ajuda. “Hoje estou fazendo terapia e tomando remédio. E estou bem melhor”, diz.

Se o mau humor de origem patológico tem tratamento, o mau humor natural também pode ser remediado e também prevenido. A prática de atividades físicas, divertir-se e estar em contato com pessoas queridas são algumas dicas para levantar a auto-estima e manter o astral sempre elevado.

* Nomes fictícios a pedido das entrevistadas.

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Dicas

• Pratique, regularmente, atividades físicas; elas liberam substâncias químicas e ajudam a regular o humor, provocando a sensação de bem-estar. A caminhada é uma boa alternativa.

• Para equilibrar a mente e aliviar a ansiedade, aposte em ioga e sessões de massagem, que estimulam a circulação sangüínea e aumentam o fluxo de oxigênio.

• Em casa ou no carro, procure ouvir uma música suave, que ajuda a relaxar e aliviar as tensões do dia-a-dia.

• Vá ao cinema ou assista um filme agradável. Isto ajuda a relaxar e se divertir.

• Fique longe de pessoas muito pessimistas. Alguns estudos indicam que o mau humor pode ser contagioso. Se a pessoa for próxima, recomende auxílio médico.

• Se alguma pessoa querida está mal humorada, faça elogios sinceros e demonstre carinhos. Beijos e abraços costumam fazer muito bem.

Da Redação