10 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Amizade: um espaço de vida

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Certa vez, um jovem caminhando pela floresta acabou se perdendo, não mais encontrando o caminho de volta para casa. Em suas buscas pela saída, encontrou, por acaso, um outro jovem que também havia se perdido. O primeiro, então, perguntou ao segundo se ele sabia o caminho de saída da grande floresta. O segundo jovem respondeu: “Não, eu também estou perdido. Mas você pode me contar sobre os trechos que percorreu e eu te contarei o caminho que já fiz, quem sabe assim encontraremos juntos a saída”. A partir deste momento iniciou entre os dois uma relação de amizade que os fez caminharem em busca de conhecimento da misteriosa floresta.

Para o filósofo Epicuro, a faculdade de cultivar amizades é a mais nobre entre todas aquelas que contribuem para a sabedoria e a felicidade. De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é, sem dúvida alguma, a aquisição da amizade. Afinal, estamos somente de passagem por esta existência e nada, absolutamente nada, nos pertence realmente. Nessa viagem pela existência, o que podemos alcançar de verdadeiramente valoroso é a amizade.

Porém, entre nós, homens e mulheres de uma sociedade de consumo, a palavra amizade acabou perdendo seus limites e se diluindo em uma sensação não muito nítida. Talvez, por uma falsa cordialidade e um medo infundado de ferir o outro, costumamos confundir os amigos com os conhecidos. Nós conhecemos várias pessoas e por não querer magoá-las as chamamos de “amigas”. Desta forma, todos se tornam nossos amigos e acabamos por banalizar a própria amizade. Em outras palavras, como não definimos bem o que é um amigo, nunca sabemos com certa exatidão se nossos conhecidos, aqueles que chamamos de amigos, vivem realmente uma relação de amizade conosco e nos querem verdadeiramente bem.

Amigo não é simplesmente aquele que pertence ao círculo de pessoas com as quais possuímos uma convivência próxima. A amizade não é um simples vínculo, um evento social. A primeira característica da amizade é a condição de livre subjetividade. O amigo é aquele que nos aceita como somos e não é por sermos assim que ele é nosso amigo. Ele poderá nos fazer críticas em relação aos nossos atos, comportamentos ou pensamentos, mas sempre respeitará nossas opiniões, nosso estilo de vida, nossa maneira de ser.

Portanto, entre amigos não há necessidade de vestir máscaras ou de representar um papel. Ao lado do amigo estamos verdadeiramente à vontade, como se estivéssemos em casa. A amizade é também uma relação inalienada, ou seja, entre amigos existe franqueza. Os amigos dizem o que pensam e não escondem nada com medo de magoar ou com receio de que o outro poderá utilizar determinadas informações. A relação de amizade não é construída por falsas opiniões. Nela não há obscuridades e muito menos temores incertos.

Os amigos não vivem com meias verdades deixando os assuntos “no ar”. Justamente por isso, a amizade é livre do despotismo dos desejos. Um amigo pode até sentir uma certa inveja do outro, mas se esforçará para trabalhar este sentimento, pois ele possui a consciência de que seus amigos não merecem pessoas invejosas. Verdadeiros amigos não procuram se manipular através de estratégias e não possuem outro desejo além da simples relação de amizade.

Uma verdadeira amizade não é uma relação de posse e nela não se colocam imposições. Quem sempre nos pede ajuda, ou até mesmo exige e, do mesmo modo, quem nunca a presta, não é amigo. Na mesma medida, não provamos nosso sentimento ao amigo compartilhando as suas lamentações, mas sim com a nossa ajuda ativa. E aqui chegamos à essência dessa relação tão valorosa. A amizade se destaca de outras relações por ser totalmente desinteressada. Dizer que a amizade é uma relação desinteressada parece ser estranho para nós, homens e mulheres educados em um universo capitalista, no qual o ter, o possuir, o alcançar, o controlar são ações importantes e incentivadas. Mas a verdade é justamente esta, a amizade possui um único objetivo: os amigos se relacionam como amigos, porque possuem o único interesse de conhecer a “floresta”, ou seja, o conhecimento do saber viver, a satisfação da companhia, o bem comum.

São pessoas que não se aproximam para usurpar algo do outro mas para somar, para contribuir e receber ao mesmo tempo, para formar um espaço de vida para todos. Por isso, o amigo ajuda descomprometidamente e se deixa ser ajudado sem medo de cobranças. A ajuda mútua existe pelo simples fato da amizade existir, ou seja, pela vontade de todos estarem bem e se desenvolverem na vida a seu modo. A amizade dá volta ao mundo e supera o tempo, anunciando a todos que acordem para a simples satisfação de viver.