10 de julho de 2026
Nacional

Bispos já discutem a nova face política do catolicismo no País


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São Paulo - Dom Odilo Scherer, que toma posse hoje como arcebispo de São Paulo, é o “candidato” novo que embaralhou a eleição para a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A entidade se reúne a partir de terça-feira em Indaiatuba (SP), na sua 45ª Assembléia Geral, para escolher os novos mandatários de seus cargos de direção - presidente, vice e secretário-geral.

A cada quatro anos, os cerca de 300 bispos brasileiros decidem pelo voto a face política do catolicismo no Brasil. Até o anúncio da escolha de d. Odilo para comandar a terceira maior arquidiocese do mundo, as cartas dessa disputa pareciam marcadas.

Bispos, desde os tidos como mais “conservadores” - que criticam o uso de instrumental sociológico para a compreensão da igreja - até os mais “progressistas” - ou seja, aqueles que dão ênfase à missão política e social do catolicismo -, davam como certa a escolha de d. Geraldo Lyrio Rocha, arcebispo de Vitória da Conquista (BA), para presidir a CNBB.

Ele ainda é considerado favorito, de toda forma. Sua “candidatura” fora lançada há mais de um ano e não havia concorrentes que se apresentassem com chance de vitória. Moderado, conciliador, era um nome de consenso.

Embora não haja campanha oficial, é costume que os bispos conversem e façam acertos políticos antes das eleições. Por decisão de Roma, bispos-auxiliares, cargo ocupado por d. Odilo até sua nomeação para a Arquidiocese de São Paulo, não podem presidir conferências episcopais. Com sua nomeação pelo Vaticano, ele entrou na disputa.

“Homem do Vaticano”

Questionados sobre as chances de d. Odilo, leigos e religiosos ligados à CNBB dizem que a pergunta certa a ser feita não é se o novo arcebispo tem força suficiente para fazê-lo, mas sim se Roma tem essa capacidade. Segundo pessoas ligadas especialmente às alas mais “sociais” da igreja -tradicionalmente identificadas com a “opção preferencial pelos pobres”-, d. Odilo é o “homem do Vaticano” nessa disputa.

O bispo gaúcho havia sido escolhido secretário-geral da entidade, em 2003, após um longo período em Roma como oficial da Congregação para os Bispos (isso entre 1994 e 2001). Outros bispos apontam a “candidatura” como um projeto de d. Odilo, ainda que apoiada por seu antecessor d. Cláudio Hummes.

A reportagem procurou d. Odilo, mas ele não quis se pronunciar sobre o assunto. Durante os anos 70 e 80 - e, com menor intensidade, na década passada -, a CNBB foi marcada por uma relativa independência em relação a Roma.

As preocupações e indicações do papa eram observadas e seguidas, por óbvio, mas a conferência sempre buscou um espaço de autonomia para deliberar e agir politicamente a respeito de problemas que considerava da “realidade local”.

Bispos e leigos defensores dessa linha temem que a entidade perca esse caráter, em alguma medida, sob o comando do arcebispo de São Paulo. Como secretário-geral, d. Odilo foi o rosto e a voz da CNBB nos últimos quatro anos. Isso se deve em parte à função executiva de seu cargo mas também à sua personalidade.

Se eleito presidente da conferência, há quem diga que ele possa continuar sendo a pessoa mais identificada com a entidade, dividindo espaço com o futuro secretário-geral - e diminuindo a importância da disputa por esse cargo. As razões para o favoritismo de d. Geraldo na disputa pela presidência são de ordem pessoal e têm a ver com o estilo dos dois.

O arcebispo de Vitória da Conquista é descrito como um homem prudente, com sensibilidade pastoral e que evita conflitos - no que, de resto, se assemelha bastante ao atual presidente, d. Geraldo Majella.

D. Odilo, ao contrário, tem um estilo mais duro, centralizador e conflitivo, o que lhe cria desafetos tanto entre os “progressistas” quanto entre os “conservadores”.