08 de julho de 2026
Geral

Crime virtual cresce velozmente

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

A presença cada vez mais constante dos computadores na vida das pessoas trouxe consigo um lado para lá de inconveniente: nos últimos tempos, o número de crimes eletrônicos tem aumentado sem parar. No período que compreende os três primeiros meses deste ano, foram registrados em todo o País 56.296 incidentes envolvendo usuários de Internet.

O dados do Centro de Estudos, Respostas e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br), ligado ao Comitê Nacional Gestor da Internet, são referentes a fraudes bancárias, invasões de computadores ou mesmo ataques à honra (injúria, calúnia, difamação) feitos via web.

Se os crimes virtuais mantiverem esse ritmo frenético de crescimento, conseguirão superar de longe a marca registrada no ano passado, quando o CERT.br recebeu 197.892 notificações de incidentes envolvendo a rede mundial de computadores. Caso a tendência atual seja mantida, 2007 chegará ao fim com saldo acumulado de mais de 225 mil ocorrências do gênero.

É provável, aliás, que o problema seja ainda maior, pois o órgãos oficiais não contam com mecanismos eficientes para mensurar o tamanho do rombo provocado pelos “criminosos .com”. Isso pode ser notado facilmente em Bauru, cidade considerada um dos principais pólos tecnológicos do Estado de São Paulo.

Se fossem analisados apenas os boletins de ocorrência registrados na Polícia Civil, seria possível afirmar que as fraudes virtuais ainda engatinham no município. A Delegacia de Investigações Gerais (DIG) conta com apenas um caso desse tipo em seus registros, referente ao ano passado: o de uma senhora que teve a conta bancária invadida por crackers.

Até agora a polícia não tem idéia do paradeiro do criminoso. As autoridades sabem apenas que o dinheiro roubado foi utilizado para pagar licenciamentos de diversos veículos em diferentes localidades do Estado. Além deste, a DIG investiga outros quatro casos de crimes eletrônicos relacionados a ataques contra a honra feitos por meio da web.

Apesar da quantidade de ocorrências do gênero ser inexpressiva, Ricardo Silva Dias, delegado assistente da DIG de Bauru reconhece que os números oficiais podem não dar uma idéia precisa da abrangência adquirida pela questão na cidade.

“Temos notícias de que muitas ocorrências sequer chegam a ser notificadas à polícia. No caso de usuários de bancos que são vítimas de fraudes, muitas vezes a instituição prefere resolver tudo de forma administrativa, ressarcindo a parte prejudicada de maneira amigável. Situações desse tipo dificilmente chegam até nós, por isso, é difícil tentar compreender o problema dos crimes eletrônicos usando as estatísticas oficiais”, explica.

O advogado bauruense José Antônio Milagre, 26 anos, especialista em direito eletrônico, concorda com a análise do delegado - até porque, no dia-a-dia ele atende dezenas de vítimas de fraudes feitas pela Internet.

“A maioria dos incidentes envolvendo a rede de computadores é passível de ser resolvida na Vara Cível. Por essa razão, as vítimas desses crimes preferem não prestar queixa à polícia”, acredita.

Atualmente, Milagre conta com uma clientela variada, que vai desde pessoas que tiveram a conta bancária invadida por crackers (internautas que usam seu conhecimento avançado em informática para cometer crimes ou prejudicar outras pessoas) até gente que foi injuriada ou difamada pela web.

Alguns casos, como o de uma jovem bauruense, chegam a ser inusitados. Usuária do Second Life - site que simula situações da vida real em 3D - ela se deparou com um personagem (no site eles são denominados “avatar”) que possuía características físicas muito semelhantes às suas.

O mais surpreendente nisso tudo é que o “clone” exercia uma profissão nada respeitosa no “mundo virtual”: era garota de programa. Ofendida, a mulher resolveu entrar com uma ação judicial contra o site.

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Investigação espinhosa

Situações como a da jovem que decidiu processar o site Second Life são difíceis de ser resolvidas, e por diverso motivos. O principal deles reside no fato de a maioria dos crimes ser cometida por meio de sites sediados fora do Brasil.

“No caso específico dela, que envolve o Second Life, não será muito complicado encontrar uma solução, até porque o site está montando uma filial no País e já se mostrou disposto a colaborar com a justiça brasileira. Mas nem sempre é assim. Na maioria das vezes os provedores simplesmente se negam a fornecer informações, alegando que não reconhecem nossas leis”, afirma o advogado José Antonio Milagre.

Ele lembra que entraves como esse acabam dificultando investigações de crimes bem mais graves do que o da garota bauruense. “A maior parte dos crackers costuma agir por meio de provedores instalados no Exterior. Como fazer para pegar um ladrão que invadiu a conta de uma pessoa através de uma página européia, por exemplo?”, questiona.

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Negócio lucrativo

Dor de cabeça para instituições financeiras e usuários de Internet, os crimes virtuais se tornaram um negócio extremamente lucrativo - pelo menos para os crackers (especialistas em fraudes eletrônicas). “Atos como o de destruir o computador da vítima ou tirar sites do ar são coisas de amadores. Um profissional de verdade vai tentar roubar as informações de que precisa da maneira mais discreta possível”, garante um hacker bauruense, que não quis se identificar.

Crackers talentosos são capazes de burlar os sistemas de segurança mais complexos, levando os usuários desses serviços ao desespero. Tempos atrás, a jornalista bauruense Layla Zakemi, 28 anos, foi surpreendida por um saque de R$ 910,00 feito em sua conta corrente. No caso dela, o golpista foi tão profissional que conseguiu simular o cadeado de segurança da instituição bancária.

Colocado na parte inferior do navegador, o ícone indica que a página contém certificado de segurança emitido pelo Comitê Gestor da Internet do Brasil. “Por sorte eles foram ‘gentis’ e não mexeram no meu limite”, brinca ela, que conseguiu ter o valor ressarcido pelo banco uma semana depois.

Mas nem sempre os crackers se mostram tão bondosos com relação à vítima, sobretudo quando grandes somas de dinheiro estão envolvidas. O hacker citado anteriormente recorda do caso de um colega seu, que em 2003 foi pago por uma empresa bauruense para roubar a lista de clientes da concorrente.

Após executar a invasão, o espião foi recompensado com um carro zero quilômetro - prova de que os atos criminosos podem contar com a participação de pessoas acima de quaisquer suspeitas.