O Calçadão da Batista de Carvalho, em Bauru, foi invadido por um “monstro do pântano” ontem pela manhã. Durante cerca de três horas ininterruptas, a estranha figura chamou a atenção das centenas de pessoas que passavam pelo cruzamento das ruas Batista de Carvalho e Treze de Maio. Não que alguém tenha ficado aterrorizado: apesar do aspecto assustador, o personagem estava mais interessado em despertar a consciência ambiental no coração dos bauruenses.
Além disso, o “monstro do pântano” conta com identidade civil, profissão e até endereço fixo. Quando não está coberto de argila, ele se apresenta como Paulo Afonso de Andrade, 39 anos, artista de rua. Ele é natural de Pintópolis, município de aproximadamente 7.500 habitantes situado na região norte de Minas Gerais, tem quatro filhos e quatro netos. Coberto de argila, Andrade passa de cidade em cidade levando sua mensagem de conscientização. Anteontem, ele se apresentou em Jaú.
Ele chegou a Bauru ontem pela manhã, por volta das 7h, e rumou direto para a Praça Rui Barbosa, onde montou seu pequeno palco improvisado - um velho balde plástico, desses usados para armazenar produtos de limpeza.
Além da argila, adquirida em lojas de flores da região, Andrade utiliza um longo pano bege para cobrir seu corpo. O tecido esconde o balde, e muitos são levados a crer que o personagem possui uma estatura “monstruosa”. Na verdade, ele é baixo (tem menos de um metro e setenta de altura) e não conta com muita massa muscular.
Locutor
O aspecto franzino é compensado pelo vozeirão de locutor, algo natural para alguém que, no passado, chegou a se formar como técnico em radialismo. “Quero conscientizar as pessoas da importância de se preservar a natureza”, brada, entusiasmado.
O ambientalismo passou a fazer parte da vida de Andrade há pouco tempo. Antes de se tornar um ator-militante, ele era artesão, desses que passam dia e mais dias confeccionando colares de sementes e pulseiras de algodão cru. “Daí eu comecei a notar tudo o que estava ocorrendo em nosso mundo e vi que era preciso fazer alguma coisa para mudar essa realidade”, diz ele.
Hoje, o artista tem costume de entregar pedaços de papel contendo mensagens ecologicamente corretas ao público. Ele também coloca aos pés do balde um cartaz escrito à mão, no qual é possível se ler que “(...) preservar a natureza é dever de todos nós” (sic).
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Missão
O ator Paulo Afonso de Andrade sabe que sua missão é difícil, mas mesmo assim não desanima. “Sou igual aquele beija-flor que tentava apagar o incêndio na floresta carregando água com o bico”, diz. De fato, ele é obrigado a fazer diversos exercícios de perseverança no dia-a-dia. Ontem, por exemplo, o segurança de uma loja de roupas exigiu que o ator retirasse seu palco do local onde estava colocado. “Sai logo daí, senão vai sujar tudo”, disse o funcionário.
Incompreendido, o monstro passou a perguntar: “E agora, para onde vou?” “Para a praça!” gritaram os presentes. “Boa idéia”, concluiu o ator. Em 1986, Andrade chegou a ter um emprego registrado: foi cobrador de uma empresa de ônibus em Brasília. Atualmente, sobrevive de contribuição espontânea oferecida pela platéia.
O artista almoça em restaurantes e dorme em hotéis e pretende permanecer em Bauru até obter dinheiro suficiente para comprar uma bicicleta e uma filmadora. No futuro, ele quer desenvolver um documentário que narre a trajetória do “monstro do pântano”.